Em Busca De Novos Nomes De Deus

nomesdedeusI. Crítica das imagens masculinas de Deus

1. SE DEUS É MASCULINO, O MASCULINO É DEUS."

Mary Daly,1971. Después de la muerte de Dios Padre.

"A tradição judeo-cristã serviu para legitimar a sexualmente desequilibrada sociedade patriarcal. Assim, por exemplo, a imagem de Deus Pai... ajudou a este tipo de sociedade, permitindo que os seus mecanismos de opressão para as mulheres pareçam correctos e adequados.

Se Deus no seu céu é um pai que dirige o seu povo, então está na "natureza" das coisas e de acordo com o plano divino e a ordem de que a sociedade seja dominada pelo sexo masculino. ...

Neste contexto produz-se uma mistificação dos papéis: o esposo que domina a esposa representa o mesmo Deus. O que acontece, certamente, é a actuação do mecanismo familiar pelo qual as imagens e valores de uma dada sociedade se projectam no reino das crenças que, por sua vez, justificam a infra-estrutura social."

2. O MONOTEÍSMO E AS RELAÇÕES HIERÁRQUICAS

Rosemary R. Ruether (1983). Sexismo y el discurso sobre Dios.

"Deste modo a hierarquia Deus-homem-mulher não só coloca a mulher em posição secundária na relação com Deus, como lhe confere uma identidade negativa na relação com o divino.

Enquanto o homem é visto, essencialmente, como a imagem do eu - Deus, masculino transcendente, a mulher é vista como a imagem do inferior, da natureza material. Sendo ambos vistos como 'naturezas mistas', a identidade masculina aponta para o 'alto' e a feminina para 'baixo'. O género converte-se no símbolo primário do dualismo da transcendência e da imanência, do espírito e da matéria."

Mas quero recordar-lhes que todo o varão tem Cristo por cabeça, enquanto a mulher tem o varão por cabeça; e Deus é a cabeça de Cristo ... O homem não deve tapar a cabeça, pois é imagem de Deus e reflecte a sua glória, enquanto a mulher reflecte a glória do homem. (1 Cor.11, 3,7)

3. UMA CULTURA DE OBEDIÊNCIA

Dorothee Sölle (1981). Padre, poder y barbarie.

É inevitável que a obediência conduza à barbárie?

Na actualidade, a obediência não é já acatamento de 'caudilhos carismáticos', mas a submissão aos ditos 'imperativos objectivos', da economia, do consumo de energia e da militarização.

Sob as novas modalidades de obediência, disfarçada de simples 'regras de jogo', perduram os elementos estruturais da religião autoritária. A antiga obediência religiosa e a nova obediência electrónica têm em comum três elementos estruturais: - 1) O reconhecimento de um poder superior que tem nas mãos o nosso destino e exclui a autodeterminação (autogestão).- 2) A submissão à autoridade desse poder que não necessita da legitimação ética, baseada no amor e na justiça. - 3) Um pessimismo relativamente à pessoa humana: o homem e a mulher são incapazes de chegar à verdade e ao amor; são seres débeis e insignificantes, cuja obediência se nutre precisamente da negação do seu valor.

4. VIOLÊNCIA E ABUSO

Joanne Carlson Brown y Rebecca Parker (1989). ¿Tanto amó Dios al mundo?

Nas teologias tradicionais, o sofrimento é ratificado como uma experiência que liberta os outros, às vezes até a Deus. Todos os fiéis são alentados a serem imitadores de Cristo, mas podem eleger suportar o sofrimento, porque se convenceram que, através da dor, algum ser querido não sofrerá. O papel do discípulo é sofrer, no lugar de outros, como Jesus sofreu por todos nós. Mas esta glorificação do sofrimento como algo salvador, exposto a diário, à nossa frente, na imagem de Jesus crucificado, induz as mulheres vexadas a preocuparem-se mais com o seu vitimário do que consigo mesmas. Obriga-se, subtilmente, a criança maltratada, a enfrentar o conflito entre as declarações de um pai que professa amor e o 'si mesmo' interno que rejeita o vexame. Quando uma teologia identifica o amor com o sofrimento, que recursos pode oferecer esta cultura a uma criança em tal situação? E quando os pais têm a imagem de um Deus que, rectamente, exige total obediência ao seu filho – até obediência à morte -, que impedirá os pais de tomarem parte no maltrato infantil que é aprovado pela divindade? A imagem de um Deus Pai, exigindo e consumando o sofrimento e morte do próprio filho, reafirmou uma cultura de abuso e de opressão, e conduziu ao abandono das suas vítimas. Enquanto esta imagem não for destroçada, será praticamente impossível criar uma sociedade justa."

5. VIOLÊNCIA SIMBÓLICA

Carol Christ (1978). Por qué las mujeres necesitan la Diosa.

Os sistemas simbólicos religiosos, centrados exclusivamente em imagens masculinas da divindade, criam a impressão de que o poder das mulheres jamais poderá ser totalmente legítimo ou benéfico. Esta mensagem não tem que ser entregue explicitamente (como, por exemplo, na história de Eva), para que se sintam os seus efeitos. Uma mulher, ignorando totalmente os mitos bíblicos da maldade feminina, reconhece, no entanto, a anomalia do poder feminino, quando reza, exclusivamente, a um Deus masculino. Poderá ver-se a si mesma como semelhante a Deus (criada à imagem de Deus)? Só se negar a sua identidade sexual. Mas nunca poderá ter a experiência, que goza, automaticamente, todo o homem e menino da sua cultura, de afirmar plenamente a sua identidade sexual, ao sentir-se feito à imagem e semelhança de Deus. A sua 'disposição de ânimo' é de confiança no poder salvífico masculino e de desconfiança no poder feminino, nela mesma e nas demais mulheres, considerando-o inferior e perigoso.

II. A busca de novas linguagens e novos nomes de Deus

1. A BÍBLIA

"Desde há muito que guardo silêncio, que permaneço calado e me contenho. Agora grito como a parturiente, estou ofegante e oprimido". (Is 42.14)

"Terá a chuva um pai? Quem gera as gotas do orvalho?

De que seio sai o gelo?

E quem produz a geada do ar, quando as águas endurecem como pedra,

E se congela a superfície do abismo?". (Job 38. 28-38)

"Quem pôs diques no mar, quando, impetuoso, saía do seio materno,

quando eu lhe dava por manto as nuvens e

o enfaixava com névoas tenebrosas? "(Job 38,8)

"Fez, a partir de um só homem, todo o género humano, para habitar em toda a face da Terra; e fixou a sequências dos tempos e os limites para a sua habitação, a fim de que os homens procurem a Deus e se esforcem por encontrá-lo, mesmo tacteando, embora não se encontre longe de cada um deles." (Act. 17, 26.28)

"Acaso pode uma mulher esquecer-se do seu bébé, não ter carinho pelo fruto das suas entrañas? Ainda que ela se esquecesse dele, Eu nuca te esqueceria". (Is. 49.15)

"Quando Israel era ainda menino, Eu amei-o e chamei do Egipto o meu filho. Mas, quanto mais os chamei, mais se afastaram; ofereceram sacrifícios aos ídolos de Baal e queimaram oferendas a estátuas. Entretanto, eu ensinava a Efraim a andar, trazia-o nos meus braços, mas não reconheceram que Eu era quem cuidava deles. Segurava-os com laços humanos, com laços de amor, fui para eles como os que levantam uma criancinha contra o seu rosto; inclinei-me para ele para lhe dar de comer". (Os 11. 1-4)

"Ouvi-me, casa de Jacob, e vós todos os sobreviventes da casa de Israel, vós a quem Eu trouxe ao colo, desde o vosso nascimento, desde que a vossa mãe vos deu à luz. Até à vossa velhice Eu serei o mesmo, sustentar-vos-ei até virem as cãs. Como já fiz, continuarei a fazê-lo. Cuidarei de vós e hei-de livrar-vos". (Is 46.3 - 4)

"O Señor avança como um herói, como um guerreiro excita o seu ardor; lança o grito de guerra, caminha com valentia contra os seus inimigos. Desde há muito tempo que guardo silêncio, que permaneço calado e me contenho. Agora grito como a parturiente, estou ofegante e oprimido. Vou devastar montanhas e colinas, secar toda a verdura, transformar os rios em terras áridas, e secar os lagos". (Is 42, 13-15)

2. TEOPOESIA

Isabel Carter Heyward, 1984

No princípio era Deus

No princípio a fonte de tudo o que é...

No princípio

Deus anelando

Deus chorando

Deus trabalhando

Deus dando à luz

Deus alegrando-se

E Deus amava o que ela tinha feito

E Deus disse: "é bom."

E Deus, sabendo que tudo o que é bom se partilha,

tomou a terra nos seus braços com ternura.

Deus anelava amizades

Deus desejava partilhar a boa terra

E a humanidade nasceu no desejo de Deus

Nascemos para partilhar a terra.

3. ANÓNIMO

Cada meio dia às doze

com o ardente calor

Deus vem a mim

na forma de duzentas gramas de aveia

Conheço-o em cada grão

Saboreio-a em cada trinca

comungo com ele quando o trago

porque me mantém viva

com duzentas gramas de aveia...

4. JULIA ESQUIVEL

Quando subo à Casa da Velha Tecedeira,

com admiração contemplo o que surge da sua mente:

mil desenhos em formação e nem um só modelo.

Os homens sempre me pedem que lhes dê

o nome da marca,

que lhes especifique os modelos.

Mas a Tecedeira não se deixa quadricular

por esquemas nem padrões.

Todos os seus tecidos são originais e não há modelos repetidos.

A sua mente está acima de toda a previsão.

As suas mãos hábeis não aceitam padrões nem moldes.

Sairá o que sair, mas A Que É, o fará

As cores dos seus fios são firmes:

sangue, suor, perseverança,

lágrimas, luta, e esperança.

Cores que não se apagam com o tempo.

Ute Seibert