O ícone da Trindade de André Rublev

icone(Alzira Fernandes)

Da janela do ícone...

O ícone da Trindade de André Rublev (I)

Nas origens

O longo caminho percorrido pela arte bizantina atinge o seu auge na representação do ícone da Trindade de André Rublev, pois através de meios humanos (traços, luz, cores) traduz-se uma realidade que escapa, pela sua natureza transcendental, a toda a linguagem humana. Parece uma empresa impossível representar o mistério da Trindade, a vida íntima das três personagens divinas através da pintura figurativa. Por isso, poderíamos dizer que a obra de Rublev se aproxima de uma visão mística. Será importante perguntarmo-nos qual era o pensamento daqueles que inspiraram o pintor, melhor dizendo, o escritor e o que na realidade queria ele exprimir na sua obra.

Os textos bíblicos

Depois das perseguições, a comunidade cristã tinha necessidade de representar o mistério central da sua fé. Primeiramente, começou pela tradição oral, depois, no Evangelho de João, escrito no final do séc. I, Jesus, no seu longo discurso no Cenáculo, abre os olhos dos apóstolos ao mistério das três personagens divinas numa só natureza divina, convidando todos os homens a participarem dessa mesma vida trinitária. É, pois, no Novo Testamento que devemos procurar o verdadeiro sentido do ícone da Trindade.

Mas o texto que servirá de base à reflexão teológica posterior é o do Livro do Génesis Gn (18, 1-15). A cena dos três anjos permanecerá como tipo, ou seja, a forma simbólica para exprimir a unidade da natureza divina. Como se chegou a dar à visita das três personagens celestes a Abraão um sentido trinitário? S. Paulo dá a este episódio um significado para a vida de Abraão e o seu lugar na economia da salvação.O Livro do Génesis descreve uma cena que, à primeira vista, simples gesto de hospitalidade, mas ultrapassa-o. E Paulo sublinha que esta promessa não é somente o anúncio do nascimento de um filho, Isaac, a continuação da descendência de Abraão, mas que ela é, na realidade, a visão da Encarnação, o desígnio eterno que Deus manifestou em Cristo e que nos dá a possibilidade de nos aproximarmos com toda a confiança pelo caminho da fé em Cristo (GI3, 6; Rm 4,3: Ef 1, 3-14)

A influência dos Padres gregos e latinos

A revelação trinitária opera-se de um modo progressivo. A tradição judaica e, depois, os Padres da Igreja, interpretaram esta hospitalidade de Abraão como uma manifestação de Deus. Pouco a pouco, a leitura trinitária de Gn 18 generaliza-se no seio do Cristianismo. A própria iconografia também fez este processo evolutivo duma visão cristológica para uma visão trinitária.

Foi no contexto dos primeiros concílios, centrados nos dogmas referentes à pessoa do Filho de Deus, à sua encarnação e às suas origens no seio da Trindade, que os Padres da Igreja interpretaram o episódio da visita dos três personagens a Abraão como uma aparição da Trindade. O primeiro testemunho que evoca os três anjos provém de Justino, morto em 165. Mas é só depois do Concílio de Niceia (325) que a Patrologia, oriental e ocidental, aprofundará a teologia da Trindade.

É então que a teologia, sobretudo graças aos Padres Capadocianos, elabora, a partir do século IV; os dogmas da Trindade na luta contra o arianismo. Deste modo, durante os séculos seguintes, formou-se a ideia da economia da salvação, o plano eterno das três pessoas divinas de salvar o mundo. A doutrina teológica dos Padres é inseparável da oração pública e é na criação litúrgica que se exprime a fé comum da Igreja de um modo mais autêntico e vivo.

Obras artísticas precedentes

As representações da Trindade são raras no primeiro milénio da arte cristã. Pode ter sido uma consequência da iconoclastia que destruíra também as imagens, mas é, antes de tudo, pelo facto de que a iconografia da Trindade apresentava aos artistas mais dificuldades que as das festas litúrgicas.

Uma pintura de inspiração cristã da primeira metade do século IV foi descoberta, em 1955, nas catacumbas da Via Latina, em Roma, mostrando Abraão a receber os três jovens. Estas personagens apresentam o mesmo tamanho, as mesmas vestes e fazem o mesmo gesto. Tudo isto parece indicar que se trata já de uma interpretação e não simplesmente de uma ilustração do relato bíblico. No século seguinte, o mosaico de Santa Maria Maior mostra já uma interpretação da cena do encontro de Abraão com os três personagens. Mais clara ainda é a significação oferecida pelo mosaico de S. Vitale em Ravena (antes de 547) onde, no centro, está já a refeição com as três personagens. O facto desta composição se encontrar no santuário, lugar da celebração litúrgica, mostra a criação de um novo 1Jpos, de uma nova cena simbólica que explica o sacrifício do Novo Testamento e da Eucaristia. É provavelmente o mais antigo dos tipos iconográficos de expressão da unidade da natureza divina.

Deste modo se formou uma concepção da ceia que servirá de modelo aos séculos seguintes. Estas obras são etapas duma evolução que conduz o espectador até às profundezas do mistério trinitário. Assim, à luz dos Padres gregos e latinos, dos textos da liturgia e das obras artísticas precedentes, o ícone de André Rublev aparece, como iremos ver, como a suma teológica e artística.

O ícone da Trindade de André Rublev (II)

O escritor

André Rublev, nascido entre 1360-1370, viveu numa época tumultuosa, mas, simultaneamente, muito rica em acontecimentos, aos mais diversos níveis. A vitória Russa sobre as hostes dos Mongóis, conhecidos no Ocidente por Tártaros, em 1380, na batalha de Koulikovo, criou no povo russo o entusiasmo pela libertação e por ter acentuado o sentido de nacionalidade e unidade à volta de Moscovo. Foi também a época em que o monaquismo, nas suas diversas formas, conheceu um grande desenvolvimento. A cultura e a arte florescem a partir dos mosteiros.

A influência de S. Sérgio de Radonej

O nome de Rublev aparece referido pela primeira vez nas crónicas, em 1405, quando foi decorada a Catedral da Anunciação, no Kremlin, em Mascava. Participa neste trabalho integrado numa equipa de pintores dirigida pelo célebre Théophane, o grego. Contudo, apesar da enorme influência deste sobre a arte russa da época, apesar da sua autoridade incontestada e merecida, Rublev não seguiu o caminho de Theophane, mas o próprio caminho, inspirado no ambiente espiritual ligado à figura de S. Sérgio de Radonej.

Um dos maiores obreiros do florescimento espiritual desta época, Sérgio de Radonej é considerado um dos santos russos mais populares. A. sua vida foi toda ela dedicada à contemplação do mistério da Santa Trindade, que se tornou o assunto da sua oração, a fonte da sua vida interior e do seu serviço aos outros. Deste modo, encarnou a paz que ultrapassa toda a inteligência e fez brilhar esta paz à sua volta. Nele, segundo as testemunhas, foi restabelecido o estado nascente da harmonia que se estendeu à própria natureza. A sua humildade extrema contagiava aqueles que o vinham visitar. Para facilitar a vida dos outros monges, assumia as tarefas mais difíceis e partilhava o seu naco de pão com um urso selvagem que o vinha ver.

Dedicou a construção da sua igreja à Santa Trindade e esforçou-se por realizar a unidade, à imagem da comunhão trinitária, a começar pela sua comunidade monástica e alargando-se à vida política do seu tempo. Para facilitar a unidade do país, reconciliou os príncipes feudais inimigos e benzeu o príncipe de Moscovo, Dimitri, na luta contra os Tártaros, predizendo a sua vitória. S. Sérgio morreu a 25 de Setembro de 1392 e tornou-se para o povo cristão da Rússia o seu padroeiro. Deixou grande número de discípulos.

Um convite a escrever o ícone da Trindade

André Rublev foi monge do mosteiro de Santo Andrónico, em Moscovo. Contemporâneo de S. Sérgio, é muito provável que o tenha conhecido. Mas se não o conheceu pessoalmente, viveu assiduamente em contacto com os seus discípulos directos que continuaram a sua obra de levar à prática os seus ensinamentos sobre a humildade, o amor, o despojamento e a solidão contemplativa, orientada para a transfiguração do espírito e para a união com Deus pela oração contínua. No centro desta espiritualidade está o amor a Deus Trindade e ao próximo.

André Rublev e o seu amigo mais velho, o seu companheiro de juventude, Daniel, conhecido por «o Negro», com quem colaborava, são descritos como «homens perfeitos em virtude». Rublev é um homem muito humilde, cheio de alegria e luminosidade. Nos dias de festa, quando não pintava, Rublev eo seu amigo Daniel sentavam-se diante dos veneráveis e divinos ícones e, contemplando-os sem discrição, elevavam constantemente o espírito e o pensamento para a luz da presença divina. Nele, a arte está unida à santidade. Sob a influência do hesicasmo, que preconizava o silêncio, a paz e a tranquilidade espiritual, deixou-se conduzir, na vida contemplativa como na actividade de iconógrafo, pela simplicidade e pela harmonia.

Em 1408, André Rublev decora com Daniel a Catedral da Assunção, em Vladimir.

Pouco depois de 1422, o discípulo querido de S. Sérgio, o «higoumene» Nikon, convida-o para o Mosteiro da Trindade de S. Sérgio, para decorar a nova Igreja da Trindade, construída para substituir a igreja primitiva na madeira, incendiada pelos Tártaros. Surge então o célebre ícone da Trindade, admirável tradição da herança espiritual de S. Sérgio. Este ícone suscitou tal veneração que levou à publicação de um decreto, no Concílio dos «Cem Capítulos»,de 1551, da Igreja Ortodoxa Russa, onde se aconselhavam os iconógrafos a pintarem este tema, imitando a obra de Rublev. Ao finalizar os cânones iconográficos, este Concílio reconheceu o ícone da Trindade como o modelo dos ícones.

Rublev passou longos anos no mosteiro de Santo Andrónico, fundado pelo bispo metropolita de Moscovo, Santo Aleixo. Nos anos 20 do século XV, participou na edificação da igreja da Transfiguração do mosteiro, interessando-se pelos planos e contribuindo para as despesas de construção. É aí que ele morre, a 9 de Janeiro de1430. Rublev foi recentemente canonizado, com o nome de Santo André, o Iconógrafo, cuja festa se celebra a 4 de Julho.

O ícone da Trindade de André Rublev ( III )

As três personagens misteriosas.. .

No ícone da Trindade e graças à arte da iconografia, o espectador é conduzido ao centro do mistério do ícone: as três personagens. O movimento das suas cabeças e dos olhares revela o sentido da composição, mas nascem diversas interpretações no que respeita às suas identidades. Adivinha-se ainda uma outra dificuldade: a relação de uma personagem a outra parece acontecer fora da ordem lógica do todo e fora das estruturas cronológicas. Será, por isso, necessário entrar numa contemplação e meditação orante do ícone para adivinhar uma resposta e interpretação possíveis.

As personagens apresentam uma característica marcante: os seus traços são rigorosamente idênticos, como se fosse o mesmo a ser representado três vezes. O mesmo rosto, o mesmo tipo de cabelo, o mesmo corpo alongado. É uma mesma e única figura que é três vezes representada em posições diferentes. Todos os três têm na mão um ceptro, símbolo do poder, mas também é um bastão de peregrinos do mundo. Possuem uma auréola para designar que têm igual dignidade e realeza. As suas vestes contêm o azul, símbolo da verdade divina que os habita. As asas que os circundam têm a mesma forma e dimensão. O ícone representa o Deus único, um só Deus com a mesma natureza divina em três pessoas. Mas cada personagem tem uma posição diferente; tudo é efectivamente diferente: as cores, os gestos, a direcção dos olhares.

O Filho

Pela sua posição, pela força das cores do vestuário, uma das personagens parece sair da composição em direcção ao observador. Ela está vestida como o Pantocrator das cúpulas, o Cristo glorioso vestido com uma túnica vermelha escura e um manto azul. O vermelho escuro é a cor da realeza, da riqueza e do amor. Recorda o sangue do Filho derramado no sacrifício da cruz. A faixa dourada no ombro direito, chamada clavis, sinal imperial no Império Bizantino, representa o serviço do Grande Sacerdote que é simultaneamente Celebrante e Vítima. A dilatação da manga simboliza o futuro sacrifício. O azul do manto que cobre unicamente um dos ombros é a cor da transcendência, das profundidades da vida divina e recorda que o Filho é enviado para a salvação do mundo.

No entanto, a personagem do ícone de Rublev não apresenta o rosto iconográfico típico do Cristo, porque não tem barba; ele é o Filho de Deus e o Cristo será o Filho encarnado em Jesus de Nazaré. Não se trata de Jesus de Nazaré glorificado, mas do Filho eterno de Deus, antes mesmo do mistério da encarnação no tempo

e no espaço, mas pela veste ele o é simultaneamente (Jo 1, 1.3). Esta personagem é a manifestação do Pai. A posição e a cabeça inclinada para a direita revelam que ele recebe tudo do Pai; é um sinal de submissão e do dom de si mesmo. Esta inclinação corresponde à inclinação da cabeça do Cristo dos ícones da Crucifixão (Fl 2, 6 sg.). Ele é o Verbo, a imagem do Pai.

Tudo o que Ele faz, fá-lo em união com o Pai, sobretudo a consagração do cálice, no qual se resume todo o seu ser.

O Pai

O movimento das personagens do centro e da direita e, com elas, o da montanha e da árvore, é de inclinação para a personagem da esquerda que tem uma postura mais direita que as outras duas. O Filho e o Espírito inclinam-se perante o Pai, assim como toda a Criação, numa atitude de adoração. A postura do Pai é de majestade imutável e, por isso, centro do diálogo. Ele é a Origem, o Princípio sem princípio; é o seu papel paternal. Apresenta os ombros cobertos, porque é ele que envia o Filho e o Espírito. Através da sua veste transparente e luminosa, sobressai o azul da divindade insondável, da transcendência infinita daquele que é a fonte de toda a vida divina. Tudo é calmo nele. Ele está numa posição de escuta do Verbo, para transmitir a mensagem ao anjo colocado diante dele.

O Espírito Santo

Diante do Pai encontra-se o anjo que, pela ligeira curvatura do seu corpo, simboliza a abertura total e parece acolher as outras personagens, É o Espírito vivificante. Com a cabeça ligeiramente inclinada, ele parece escutar com muita atenção o que os outros dizem. Como que para registar e meditar. A sua veste é da cor da divindade e da frescura da Primavera. O verde do manto simboliza o crescimento, a fertilidade e a esperança. Este envolve-o num só ombro, visto que ele é também um enviado do Pai, com o seu bastão de peregrino do mundo até ao fim dos tempos. A túnica azul indica que a terceira pessoa também é Deus, igual às outras duas. Do branco imaculado da mesa destaca - se o gesto da mão como se ele quisesse confirmar o pedido do Filho em se aproximando do cálice.

Os rostos, as mãos, os olhares

Os rostos são idênticos, porque as três personagens são idênticas na sua natureza. Embora cada uma assuma uma tarefa particular, as outras duas estão presentes e activas, na medida em que a acção trinitária se realiza sempre a três. Não há distância temporal, nem em hierarquia entra os três. São co-eternos.

A mão direita do Pai implica autoridade: envia o Filho único ao mundo para estabelecer a eterna Aliança com a humanidade. Mas também envia o Espírito da verdade e do amor. Uma bênção pascal parte da mão direita do Pai e passa à mão direita do Filho. O Filho bendiz, consagrando o cálice do cordeiro. A posição dos dedos sugere um segundo movimento até à mão do Espírito com o dedo fino ensina-nos isso, ela descansa no fundo branco da toalha com os quatro cantos que simbolizam os quatro Evangelhos. O Espírito. Pela sua mão, nos introduz no mistério do Cálice. O Pai, fonte eterna de toda a bênção, bendiz através do Filho, verdadeiro Cordeiro Pasça, bênção que se transmite ao mundo através do Espírito Santo. Toda a humanidade é abençoada pela Trindade Santa.

O olhar do Pai exprime uma ordem e um pedido, confirmando, assim, o sacrifício do Filho. O olhar do Filho dirige-se para o anjo que se encontra à sua direita, um olhar que não se pode desligar do outro, um olhar que corresponde ao amor do Pai e à entrega de si. O olhar do Espírito dirigido para o cálice traduz a ideia central do diálogo silencioso do Pai e do Filho. Fixa o cálice e parece envolvê-lo. Mas ele está também levantado para o alto, unindo-se à linha que une os olhares do Pai e do Filho. O Espírito é a difusão em nós dos frutos do diálogo do Pai e do Filho.