Quartos de Hora

horaIgnacio Larrañaga

I. EXERCÍCIOS PRÉVIOS

Muita gente não avança na oração por des­cuidar a preparação prévia.

Há vezes em que, ao querer rezar, te sentirás sereno. Neste caso não necessitas de nenhum exercício prévio. Sem mais, concentra-te, invoca o Espírito Santo, e reza.

Outras vezes no início da oração, sentir-te-ás tão agitado e dispersivo que, se não acalmares pre­viamente os nervos, não conseguirás nenhum fruto.

Pode ainda acontecer outra coisa: depois de muitos minutos de saborosa oração, percebes de repente que o teu interior se está povoando de ten­sões e de preocupações. Se, neste momento não recorreres a algum exercício de descontracção, (ou relaxação) não só perderás o tempo mas também resultará num momento desagradável e contraproducente.

Por isso, ofereço-te alguns exercícios muito simples. De ti depende quais, quando, quanto tempo e de que maneira utilizá-los, segundo as necessidades e as circunstâncias.

Sempre que te puseres a rezar, toma uma po­sição corporal correcta - cabeça e tronco erguidos. Assegura uma boa respiração. Relaxa tensões e nervos, esquece recordações e fantasias, faz va­zio e silêncio. Concentra-te. Invoca o Espírito Santo e começa a orar. São suficientes quatro ou cinco minutos. Isto, quando estás normal­mente sereno.

Relaxação corporal.

Calmo concentrado, ali­via um a um, braços e pernas (como que esti­cando, encolhendo, distendendo os músculos); experimentarás libertação de energias. Da mesma forma afrouxa os ombros. Distende os músculos faciais e os da fronte, afrouxa os olhos (fecha­dos). Abranda os músculos - nervos do pes­coço e da nuca balanceando a cabeça para a frente e para trás e rodando-a em todas as direc­ções, com tranquilidade e concentração; veri­ficarás como os músculos-nervos se descontraem (se relaxam). Uns dez minutos.

Relaxação mental.

Muito calmo e concen­trado, começa por repetir a palavra <<paz» em voz suave (se possível na fase inspiratória da respi­ração) sentindo como que a sensação sedativa de paz a inundar primeiramente o cérebro (ex­perimentar por uns minutos o cérebro como que despreocupado); e depois percorre orde­nadamente todo o organismo enquanto vais pro­nunciando a palavra «paz» e vais inundando tudo com uma deliciosa e profunda sensação de paz.

Depois, faz esse mesmo exercício e da mes­ma maneira com a palavra «nada», sentindo a sensação de vazio-nada, começando pelo cérebro e seguindo por todo o organismo até sentir uma sensação geral de descanso e silêncio. De dez a quinze minutos.

Concentração.

Com tranquilidade, percebe (simplesmente sentir e continuar sem pensar em nada) o movimento pulmonar, muito con­centrado. Uns cinco minutos.

Depois, fica tranquilo, quieto e atento; ouve e deixa todos os ruídos afastados, próximos, fortes ou suaves. Uns cinco minutos.

Depois disto, com muita tranquilidade e atenção, capta em alguma parte do corpo as batidas cardíacas, e fica muito concentrado nesse ponto, simplesmente sentindo as palpitações, sem pensar em nada. Uns cinco minutos.

Respiração.

Fica tranquilo e relaxado.

Acompanhando o que fazes com a tua aten­ção, inspira pelo nariz lentamente até encher bem os pulmões, e expira pela boca entreaberta e o nariz, até expulsar completamente o ar. Em resumo: uma respiração tranquila, lenta e pro­funda.

A respiração mais relaxante é a abdominal: enchem-se os pulmões ao mesmo tempo que se enche (inchando) o abdómen; esvaziam-se os pulmões e ao mesmo tempo que se esvazia (desinchado) o abdómen. Tudo simultaneamen­te. Não forces nada; ao princípio umas dez res­pirações. Com o tempo podem ir aumentando.

Repito-te: como adulto que és, deves utili­zar estes exercícios com liberdade e flexibilidade quanto ao tempo, à oportunidade, etc.

Ao princípio, talvez não sentirás efeitos sen­síveis. Lentamente irás melhorando. Haverá al­gumas vezes em que os efeitos serão surpreen­dentemente positivos. Outras vezes, o contrá­rio. Assim é imprevisível, a natureza.

Há quem diga: a oração é graça; e não depende de métodos nem de exercícios. Dizer isso é um grave erro. A vida com Deus é uma convergência entre a graça e a natureza. A ora­ção é graça, sim: mas também é arte, e como arte exige aprendizagem, método e pedagogia. se muita gente pára numa mediocridade espi­ritual não é por falta de graça, mas por falta de ordem, disciplina e paciência: em suma, porque falta a natureza.

II. ORIENTAÇÕES PRÁTICAS

1.     Quando, ao orar, sentires sono, põe-te de pé, com o corpo direito e calcanhares unidos.

2.     Quando sentires secura ou aridez, pensa que pode tratar-se de provas divinas ou emer­gências da natureza. Não faças violência para «sentir».

Faz-te acompanhar pelos três anjos: Pa­ciência: aceita com paz o que não puderes solucionar. Perseverança: continua a orar mesmo que não sintas nada. Esperança: tudo passará; amanhã será melhor.

3.      Nunca esqueças que a vida com Deus é vida de fé. E a fé não é sentir mas saber. Não é emoção mas convicção. Não é evi­dência mas certeza.

4.    Para orar necessitas de método, ordem, dis­ciplina, e, também de flexibilidade, porque o Espírito Santo pode soprar no momento que menos esperes. As pessoas cansam-se de rezar por falta de método. O que reza de qualquer maneira acaba por ser uma coisa qualquer.

5.      Ilusão, não; esperança sim. A ilusão des­vanece-se; a esperança permanece. Esforço sim, violência não. Uma forte agitação para sentir devoção sensível produz fadiga men­tal e desalento.

6.      Pensa que Deus é gratuidade. Por isso a sua pedagogia para connosco é desconcertante; devido a isso, na oração não há lógica humana: a tais esforços, tais resultados; a tanta acção, tanta reacção; a tal causa, tal efeito. Ao contrário, normalmente haverá proporção entre os teus esforços na oração e os «resultados». Tens que saber que a coisa é assim e aceita-a com paz.

7.      A oração é relação com Deus. Relação é movimento das energias mentais, um movi­mento de adesão a Deus. É, pois, normal que se produza na alma emoção ou entu­siasmo. Porém, cuidado! É imprescindível que esse estado emotivo fique controlado pelo sossego e serenidade.

8.      A presença divina, durante a actividade orante, pode acontecer a qualquer mo­mento: ao princípio, no meio, no fim; em todo o tempo ou em nenhum momento. Neste último caso tem cuidado para não

te deixares levar pelo desânimo e impa­ciência. Pelo contrário relaxa os nervos, abandona-te e continua a orar.

9.      Queixas-te: rezo, mas não se nota nada na minha vida. Para derivar a força da ora­ção na vida, primeiro: sintetiza a oração da manhã numa frase simples (por exem­plo: «Que faria Jesus em meu lugar?»), e recorda-a em cada nova circunstância do dia. E segundo: quando surgir uma contra­riedade ou provação forte, desperta e toma consciência de que tens que sentir, reagir e agir como Jesus.

10.     Não pretendas mudar a tua vida; basta melhorá-la. Não procures ser humilde; basta fazer actos de humildade. Não pretendas ser virtuoso; basta fazer actos de virtude. Ser virtuoso significa actuar como Jesus.

Não te assustes com as recaídas. Re­caída significa actuar segundo os teus ras­gos negativos. Quando estiveres descuidado ou desprevenido, vais reagir segundo os teus impulsos negativos. É normal. Tem paciên­cia. Quando chegar a ocasião, procura não estar desprevenido, mas desperto, e trata de actuar segundo os impulsos de Jesus.

11.     Toma consciência de que podes muito pouco. Digo-o para te animar, para que não desanimes quando vierem as recaídas. Pensa que o crescimento em Deus é sumamente lento e cheio de contratempos. Aceita com paz estes efeitos. Depois de cada recaída, levanta-te e anda.

12.     A santidade, consiste em estar com o Se­nhor, e é de tanto estar, que sua figura (imagem) se grava na alma; e assim cami­nhar à luz dessa imagem. Nisso consiste a santidade.

13.     Para dar os primeiros passos no trato com Deus, podes utilizar aquelas modalidades que, para caminhar, oferecem apoio: os nú­meros 1, 2 e 3.

Nos piores momentos de dispersão ou aridez, não percas tempo; poderás rezar com as modalidades oração- escrita, oração audi­tiva e leitura rezada.

II. MODALIDADES

1. LEITURA REZADA

Escolhe-se uma oração escrita, por exemplo um salmo ou outra oração qualquer. Atenção, pois, não se trata de ler um capítulo da Bíblia ou um tema de reflexão, mas de uma oração.

Escolher posição exterior e atitude interior orantes. Sossegar-se e invocar o Espírito Santo.

Começa a ler devagar a oração. Muito deva­gar. Ao lê-la, tenta vivenciar o que lês. Quero dizer, trata de assumir aquilo que lês, pronunciá-lo «com toda a alma», fazendo tuas as frases lidas, identificando a tua atenção com o conteúdo ou significado das frases.

Se te encontras com uma expressão que «te diga» muito, detém-te aí mesmo. Repete-a muitas vezes, unindo-te mediante ela ao Senhor, até es­gotar a riqueza da frase, ou até que o seu conteúdo inunde a tua alma. Pensa que Deus é como a Ou­tra Margem; para atingirmos essa margem não ne­cessitamos de muitas pontes; urna só ponte, uma única frase para nos mantermos enlaçados.

Se isto não acontecer continua a ler muito de­vagar, assumindo e aprofundando o significado daquilo que lês. Pára de vez em quando. Volta atrás para repetir e reviver as expressões mais sig­nificativas.

Se num dado momento achares que podes dispensar o apoio da leitura, põe de lado a oração escrita e deixa que o Espírito Santo se manifeste em ti com expressões espontâneas e inspiradas.

Esta modalidade, sempre fácil e eficaz, ajuda de maneira particular a dar os primeiros passos nas alturas de menos fervor ou de aridez, ou sim­plesmente nos dias em que nada ocorre devido à dispersão mental ou à agitação da vida.

2. LEITURA MEDITADA

É necessário escolher um livro cuidadosa­mente seleccionado que não distraia, mas que con­centre, e de preferência absoluta a Bíblia. É conve­niente ter conhecimento pessoal dela sabendo onde encontrar os temas que te digam muito; por exemplo, sobre a consolação, a esperança, a pa­ciência para escolher aquela matéria que a tua alma mais necessita nesse dia. Também se pode seguir a ordem litúrgica, mediante os textos que a liturgia indica para cada dia.

Em princípio não é aconselhável o sistema de abrir ao acaso a Bíblia, ainda que uma ou outra vez sim. Em qualquer caso, é conveniente saber, antes de iniciar a leitura a meditar, que tema vais meditar, e em que capítulo da Bíblia.

Toma a posição adequada. Pede a assistência do Espírito Santo e acalma-te.

Começa a ler devagar, muito devagar; en­quanto lês, trata de entender o que lês. O significa­do direito da frase, o seu contexto e a intenção do Autor Sagrado. Aqui está a diferença entre a leitu­ra rezada e a leitura meditada; na leitura rezada as­sume-se e vive-se o que se lê (fundamentalmente é tarefa do coração) e na leitura meditada trata-se de entender o que lês (actividade intelectual, princi­palmente em que usamos conceitos, explicitando-­os, aplicando-os, confrontando-os para aprofun­dar na vida divina, formar critérios de vida, juízos de valor, em resumo: uma mentalidade cristã).

Segue lendo devagar, entendendo o que lês. Se aparece alguma ideia que te chame forte­mente a atenção, pára aí mesmo; fecha o livro; dá voltas na tua mente a essa ideia, meditando nela; aplica-a à tua vida: Tira conclusões.

Se nada disto acontecer continua com uma leitura repousada, concentrada, tranquila

Se aparecer um parágrafo que não com­preendas, volta atrás; faz uma ampla releitura para colocar-te no contexto; e procura entendê-lo.

Prossegue lendo lenta e atentamente.

Se num dado momento o teu coração se co­moveu e sentires vontade de louvar, agradecer, suplicar...fá-lo livremente.

Se não acontecer isto, continua a ler lenta­mente, entendendo e ponderando o que lês.

É normal e conveniente que a leitura medi­tada acabe com uma oração. Procura, também tu, fazê-lo assim.

É bom que a leitura meditada se concretize em critérios práticos de vida, para serem aplicados no programa do dia.

É de aconselhar absolutamente que durante a meditação se tenha sempre na mão um livro, so­bretudo a Bíblia. De outra maneira perde-se mui­to tempo. Não é necessário ler todo o tempo. San­ta Teresa era uma nulidade para meditar, se não ti­nha um livro na mão.

3. EXERCÍCIO AUDITIVO

Escolhe uma expressão forte que te encha a alma (por exemplo «meu Deus e meu Tudo») ou simplesmente uma palavra (por exemplo «Jesus», «Senhor», «Pai»).

Começa a pronunciá-la, com sossego e con­centração, com voz suave, cada dez ou quinze se­gundos.

Ao pronunciá-la procura -assumir vivencial­mente o conteúdo da palavra pronunciada. Toma consciência de que tal conteúdo é o próprio Se­nhor.

Começa a aperceber-te como a «presença» ou «Substância» encerrada nessa expressão vai lenta e suavemente inundando o teu ser inteiro, impregnando as tuas energias mentais.

Vai distanciando pouco a pouco a repetição dando lugar, cada vez mais, ao silêncio. Deverás sempre pronunciar a mesma expres­são.

Variante: Quando inspiramos, o corpo fica tenso, porque os pulmões se dilatam (enchem). Pelo contrário, quando expiramos (expulsamos o ar dos pulmões) e o corpo relaxa-se, distende-se.

Nesta variante aproveitamos a fase de expi­ração (momento natural de descanso) para pro­nunciar essas expressões. Desta maneira, O corpo e a alma entram numa combinação harmónica. A concentração é mais fácil porque a respiração e a irrigação são excelentes. E assim, os resultados são sumamente benéficos tanto para a a alma como para o corpo.

4. ORAÇÃO ESCRITA

Trata-se de escrever aquilo que a pessoa em oração quereria dizer ao Senhor.

Para momentos de emergência pode ser a única maneira de rezar. Em tempos de maior ari­dez ou de dispersão aguda, ou nos dias em que nós nos sentimos despedaçados por graves des­gostos.

Tem a vantagem de concentrar muito a atenção; e também a vantagem de poder servir pa­ra rezar tempos mais tarde.

5. EXERCÍCIO VISUAL

Arranje uma estampa expressiva, por exem­plo uma imagem de Jesus ou de Maria ou outro motivo, estampa que expresse (ou signifique) for­tes impressões, como: paz, mansidão, ânimo ... O importante é que a mim me diga muito.

A estampa na mão e, depois de calmamente invocares o Espírito Santo, fica quieto a olhar sim­plesmente a estampa inteiramente e em todos os seus detalhes. (Ou particularidades).

Em segundo lugar, capta como que intuitiva­mente, com concentração e serenidade, as im­pressões que esta imagem evoca para ti. O que te «diz» a ti essa figura.

Em terceiro lugar, com inteira tranquilidade, transladar-me mentalmente para essa imagem, como se eu fosse essa imagem, ou me colocasse no seu interior. E, reverente e quieto, fazer «mi­nhas» as expressões que a figura desperta para mim. Desta maneira identificado com essa figura, permanecer demoradamente, impregnada toda a minha alma com os sentimentos de Jesus que a estampa expressa. É assim que a alma se reveste da figura de Jesus e participa da sua disposição interior.

Finalmente, neste clima interior, transladar-­me mentalmente para a vida, imaginar situações difíceis e superá-las com os sentimentos de Jesus. E assim ser a fotografia de Jesus no mundo.

Esta modalidade presta-se especialmente pa­ra pessoas que têm facilidade imaginativa.

6. ORAÇÃO DE ABANDONO

É a oração (e atitude) mais genuinamente evangélica. A mais libertadora. A mais pacificado­ra. Não há anestesia que tanto suavize as penas da vida com um «eu me abandono em Ti»;

Aconselha-se a aprender de cor a oração nú­mero 33 deste livrinho para a rezar ao estilo do Pai-Nosso quando se encontra a cada passo com gran­des ou pequenas contrariedades.

Põe-te na presença do Pai, que dispõe ou per­mite tudo, em atitude de entrega. Podes usar co­mo fórmula a oração Nº 33, ou outra mais sim­ples como: «faça-se a Tua vontade» ou também: «em Tuas mãos eu me entrego».

Como disposição incondicional, deves redu­zir ao silêncio a mente que tende à rebeldia. O abandono é uma homenagem de silêncio na fé.

Vai dispondo, pois, em silêncio e paz, através de uma fórmula, tudo aquilo que te des­goste: teus progenitores, aspectos da tua figura 6­sica, doença, a idade avançada, as impotências e limitações, traços negativos da tua personalidade, pessoas próximas que te desagradam, histórias so­fredoras, memórias dolorosas, fracassos, equívo­cos...

Pode ser que ao recordá-lo te doa. Porém, ao depositá-los na mão do Pai, visitar-te-á a Paz.

7. EXERCÍCIO DE ACOLHIMENTO

Assim como no exercício de «Saída e Quietu­de», o «eu» afasta-se e fixa-se no TU, neste exercí­cio de acolhimento, eu permaneço sereno e recep­tivo, e o TU vem até mim e eu o acolho, gozoso, à sua chegada. É conveniente efectuar este exercício em Jesus ressuscitado.

Empregamos o verbo sentir. Sentir não no sentido de emocionar-se, mas de perceber. Po­dem-se sentir muitas coisas sem emocionar-se. Sinto que o solo está frio, sinto que a cabeça me doe, sinto que faz calor, sinto tristeza.

Recorre a certas expressões (que no final indicarei), começa a acolher, na fé, Jesus ressusci­tado e ressuscitador que chega a ti. Deixa que o espírito de Jesus penetre e inunde todo o teu ser. Sente que a presença ressuscitada de Jesus chega até aos últimos recônditos da tua alma enquanto vais pronunciando as expressões. Sente como es­sa Presença toma plena posse daquilo que és, do que pensas, do que fazes; como Jesus assume-o no mais íntimo do teu coração. Na fé, recebe-o sem reservas, gozosamente.

Na fé, sente como Jesus toca essa ferida que te dói; como Jesus arranca o espinho dessa angús­tia que te oprime: como te alivia esses temores, te liberta daqueles rancores. Há que tomar consciên­cia de que essas sensações geralmente se sentem na boca do estômago como espadas que rasgam. Por isso se fala da espada da dor.

Depois volta à vida. Acompanhado de Jesus e revestido de Jesus (da sua figura), faz um passeio pelos lugares onde trabalhas ou vives. Apresenta-­te perante aquela pessoa com quem tens conflitos. Imagina-te como a olharia Jesus. Olha-a com os olhos de Jesus. Como seria a serenidade de Jesus se tivera que enfrentar-se com aquele conflito. De­frontar esta situação, que diria a essa pessoa, co­mo agiria naquela necessidade. Imagina toda a classe de situações, mesmo as mais difíceis, e dei­xa Jesus actuar através de ti. Olha com os olhos de Jesus, fala com a boca de Jesus, que o Seu sem­blante apareça através do teu semblante. Não se­jas tu o que vives, mas Jesus.

Eis um exercício transformante ou cristifi­cante.

Toma uma posição orante. A mesma que no exercício de Saída e Quietude, depois de pronun­ciar e viver a frase permanece algum tempo quieto e em silêncio, permitindo que a vida da frase res­soe e encha o âmago da tua alma.

Jesus entra dentro de mim.

Toma posse de todo o meu ser.

Toma-me com tudo o que sou, o que penso e o que faço.

Toma o mais íntimo do meu coração. Cura-me esta ferida que tanto me dói. Tira-me o espinho desta angústia. Retira de mim estes temores, rancores e tentações.

Jesus, que queres de mim? Como olharias aquela pessoa? Qual seria a Tua atitude naquela dificuldade? Como te comportarias naquela situação? Os que me vêm, Te vejam, Jesus. Transforma-me todo em Ti. Que eu seja uma viva transparência da Tua Pessoa.

Também este exercício deve durar uns 15 ou 20 minutos.

8. SAÍDA E QUIETUDE

Neste exercício pronuncia-se mentalmente ou em voz suave alguma expressão (que mais tar­de indicarei).

Apoiado na frase, o Eu sai de si mesmo para o TU. Ao assumir e vivenciar o significado da frase, (ao identificar a mente com o conteúdo da frase), a frase transporta e deposita a alma num TU. E as­sim todo o EU, fica num TU. Fica fixo, imóvel. Há também, portanto, uma quietude.

Quero dizer: Não deve haver movimento mental. Isto é; não deves preocupar-te em enten­der o que a frase diz. Em todo o entender há um ir e voltar. Neste momento, nós estamos em ado­ração. Não deve haver, pois, qualquer actividade analítica.

Ao contrário; a mente, estimulada pela frase, lança-se para um TU, quieta e unida, admirativa­mente, contempladora possessivamente, amoro­samente. Por exemplo, diz-se: «Tu és a Eternida­de Imutável» não deverás preocupar-te em enten­der como e porquê Deus é eterno, mas olhá-Lo e admirá-Lo estaticamente como eterno.

Depois de silenciar todo o ser, faz presente na Fé, Aquele em quem existimos, nos movemos e somos.

Depois de pronunciá-la, fica em silêncio uns trinta segundos ou mais, mudo, quieto, como quem escuta uma ressonância, estando a atenção imóvel, compenetrada possessivamente, identifi­cada afirmativamente com a substância da frase, que é o próprio Deus.

Neste exercício tens que deixar-te arrebatar pelo TU. O «EU» desaparece praticamente en­quanto que o TU domina toda a esfera.

Eis algumas expressões que podem servir pa­ra este exercício:

Tu és o meu Deus.

Desde sempre e para sempre Tu és Deus. Tu és a eternidade imutável.

Tu és imensidade infinita.

Tu és sem princípio nem fim. Estás tão longe e tão perto.

Tu és o meu Deus e o meu tudo. Oh, profundidade da essência e presença do meu Deus!

Tu és o meu descanso total. Só em Ti sinto paz.

Tu és a minha fortaleza. Tu és a minha segurança. Tu és a minha paciência. Tu és a minha alegria.

Tu és a minha vida Senhor, grande e admirável Senhor.

9. «EM LUGAR DE» JESUS

Imaginar Jesus em adoração, por exemplo à noite, de manhã, sob as estrelas.

Com infinita reverência, com fé e paz, pene­tra no interior de Jesus. Esforça-te por observar e reviver a atitude que Jesus viveria na sua relação com o Pai, e assim participa da experiência pro­funda do Senhor.

Trata de presenciar e reviver os sentimentos de admiração que Jesus sentiria pelo Pai. Dizer com o coração de Jesus, com as suas vibrações, por exemplo, «glorifica o Teu nome»; «santifica­do seja o Teu nome».

Colocar-se no interior de Jesus, assumir a harmonia da Sua alma e reviver aquela atitude de oferenda e submissão que Jesus experimentaria diante da vontade do Pai quando dizia: «Não o que eu quero, mas o que Tu quiseres». Faça-se a Tua vontade.

O que teria sentido quando disse «Como Tu e Eu somos uma mesma coisa», ao pronunciar «Abba» (querido Papá). Procura experimentar is­so. Coloca-te no coração de Jesus para recitar a oração sacerdotal, (Jo 17).

Tudo isto (e tantas outras coisas) fá-lo como «meu» na fé, e no espírito para revestir-me da dis­posição interior de Jesus. E regressar à vida levan­do em mim a vida profunda de Jesus.

Esta modalidade de oração só será possível no Espírito Santo «que ensina toda a verdade».

10. ORAÇÃO DE CONTEMPLAÇÃO

Os sinais de que a alma entrou na contem­plação, segundo S. João da Cruz, são os seguintes:

- Sempre que a alma gosta de estar a sós com a atenção amorosa e serena em Deus.

- Deixar estar a alma serena e quieta, atenta, a Deus, ainda que pareça estar perdendo tempo, com paz interior, quietude e des­canso.

- Deixar a alma livre, sem se preocupar em pensar ou meditar. Simplesmente aten­ção tranquila e amorosa a Deus.

a) Silêncio. Fazer vazio interior. Suspender a actividade dos sentidos. Esquecer recor­dações, desligar-se das preocupações.

Isolar-se do mundo exterior e interior. Não pensar em nada. Melhor, não pensar nada.

Ficar mais além do sentir e da acção sem se fixar em nada, sem olhar nada nem dentro nem fora.

Fora de mim, nada. Dentro de mim, nada. Que resta? Uma atenção de mim mesmo a mim mesmo, em silêncio e paz.

b) Presença. Abrir a atenção para o Outro, na fé, como quem olha sem pensar, como quem ama e sente que é amado.

Evitar «imaginar» Deus. Toda a imagem ou forma de Deus deve desaparecer. É preciso «silenciar» Deus de tudo o que signifique loca­lidade. A Deus não corresponde o verbo estar, mas o verbo ser. Ele é a Presença Pura, Amante e Envolvente, Compenetrante e Omnipresente.

Fica só um TU para o qual eu sou uma atenção aberta: amorosa e calma.

Praticar o exercício auditivo até que a pala­vra «caia» por si mesma. Ficar sem pronunciar nada com a boca, ou com a mente.

Olhar e sentir-se olhado. Amar e sentir-se amado. Eu sou como uma praia. Ele é como o mar. Eu sou como o campo. Ele é como o Sol. Deixar-se iluminar, inundar, AMAR. DEIXAR-SE AMAR.

Fórmula do exercício:

Tu me sondas. Tu me conheces. Tu amas-me.