As ciências e as nossas imagens de Deus

deuscienciaDepois da crise do mecanicismo a finais do século XIX e princípios do século XX as ciências nos abriram a uma nova concepção do universo, visão do mundo que condicionou também a imagem de Deus. Do Deus cosmológico aristotélico, do Deus arquitecto do universo, do Deus relojoeiro passou-se a uma imagem de Deus mente do universo ou princípio de inteligibilidade. É frequente hoje falar do Deus dos físicos, Deus que se revela na harmonia do existente, não de um Deus que cuide da sorte dos seres humanos na história. É o Deus da religião cósmica (Einstein). Religião cósmica que tem um duplo movimento: por um lado dá-se uma desmitificação do cosmos pela Ciência e, por outro lado, existe uma maior conceptualização da imagem de Deus. O rosto de Deus fica reduzido à mente do universo, "causa final das entranhas do universo" dirá Paul Davies no seu livro La mente de Dios.

A revolução biológica a que estamos a assistir, junto com a mudança de paradigma de compreensão de um universo concebido como ordem a um universo concebido como caos de onde emergem a ordem e a vida, leva-nos a a uma nova imagem de Deus concebido como princípio de emergência ou liberdade absoluta. Também aqui a ciência actual pode ajudar-nos a purificar as imagens de Deus que vimos espontaneamente a arrastar, para nos enfrentarmos com uma imagem de Deus, talvez mais próxima do ser humano do nosso tempo e portanto mais fácil de adorar e de dialogar com Ele, i.e., a fundamentar o que constitui a verdadeira atitude religiosa. Esta imagem de Deus como princípio de liberdade e de emergência de todo o novo está mais perto da imagem do "Deus vivo" da tradição judeo-cristã (assim se chama a Deus mais de trinta vezes na Bíblia). A emergência de novidade e a capacidade de reproduzir e multiplicar estruturas altamente ordenadas e sumamente complexas são as que permitiram a exuberante manifestação da vida. Esta concepção de um universo dinâmico e evolutivo nos ajudará a talhar uma imagem do Deus vivo "no que vivemos, nos movemos e existimos" (Act 17, 28) que possibilitou o desabrochar da vida. Arthur Peacocke no seu livro Teología para una era científica afirma: "Chegamos agora a uma etapa crucial desta empresa, a de nos perguntarmos até que ponto estes conceitos, modelos e imagens de Deus, que foram crivados e refinados na experiência religiosa, em particular na experiência cristã, e que foram confirmados pela reflexão filosófica, têm necessidade de ser modificados e enriquecidos pela impressionante visão do mundo que as ciências naturais nos oferecem". Que dúvida há de que se somos congruentes com o que vimos afirmando, a ciência actual, nos seus grandes ramos a física e a biologia, nos oferecem uma série de soportes intelectuais para enriquecer a imagem de Deus, ainda que no diálogo e integração com a ciência sejamos conscientes de que nenhuma madeira mundana, por muito nobre que seja, como é a ciência, é apta para que nela seja talhado esse novo rosto de Deus. Sempre recairá sobre o ser humano o mandato bíblico de não construir imagens definitivas de Deus (Dt 5,8). Mas a visão do mundo que as ciências nos oferecem ajudar-nos-á a ir purificando a nossa imagem de Deus e a sua relação com o mundo, i.e., uma nova concepção da acção criadora de Deus num universo dinâmico e evolutivo, ainda que conscientes de que nenhuma imagem ou modelo será definitivo; já S. Tomás nos avisava que um erro acerca das criaturas pode conduzir-nos a uma falsa imagem de Deus ("nam error circa creaturas redundat in falsam de Deo sententiam", Summa contra Gentiles, Liber 2, C 3, nº 6). A ciência e as nossas imagens da transcendência com palavras de João Paulo II na referida mensagem ao P. Coyne: "Neste processo devemos superar toda a tendência a um reducionismo unilateral, ao medo e ao isolamento auto-imposto. Criticamente importante é que cada disciplina continue a enriquecer, fortalecendo e desafiando a outra, para que seja mais plenamente o que lhe toca ser" (Juan Pablo II).

Ignacio NÚÑEZ DE CASTRO