E descobriu que estava nu

desqueestavanu"E...descobriu que estava nu"(Gn. 3, 10).

Esta percepção pode coincidir com a descoberta de que se é "transparência para Deus", de se sentir perpassado/a pelo seu conhecimento, pois toda a esfera de ser humano é-lhe presença sempre actual. Para o humano é, portanto, impossível "ocultar-se" (Sl. 138) de quem é seu autor e origem. Todas as nossas acções e intenções, aspirações e tendências são-lhe mais claras do que a luz do sol.

A Bíblia está pejada de expressões relativas à nudez. Uma delas proferiu-a Job, ao dizer: "saí nu/a do ventre da terra e nu/a para ela voltarei", expressão que realça a mesma ideia: apesar de, para Deus, eu permanecer em total desnudez, por ser total diafania, esse atributo, que me viu nascer, acompanhar-me-á até regressar à minha origem, ao seu seio.

Apesar de que, frequentemente, aceitamos como facto essa declaração, poderá acontecer, que, no frenesim diário que nos leva à "conquista" do sucesso da vida, nos seja difícil dispor do tempo reflexivo que nos descubra os subterfúgios que utilizamos, no que designamos como busca de realização pessoal.

Conta-se que, toda a pessoa humana, ao chegar à existência, traz consigo um duplo alforge, que carrega aos próprios ombros, durante toda a vida. Um deles tem-no à frente, diante dos olhos e o outro atrás das costas. Diz-se que, na primeira metade da vida, o seu anelo de heroísmo, de dominar e vencer, de poder olhar do alto para os seus semelhantes, leva-a a atirar para o saco que tem atrás das costas, as acções e intenções, esforços e instrumentos de que se serve, nessa "aventura", sem trégua. Porém, passado o seu meio-dia, seria muito desejável que começasse a retirar, um a um, cada vulto que guardou e carrega atrás, o olhasse bem, o localizasse e discriminasse, reconhecesse e assumisse, integrando-o, passando-o, então, para o saco da frente.

Se atingido o meu meridiano, me ponho nessa situação, pode ser que, então, me desnude perante mim mesmo/a. Assim, passam a existir dois sujeitos - Deus e eu - para uma mesma realidade – a minha nudez, que coincide com a minha verdade. Esta segunda objectivação pode decorrer da coragem de escancarar tudo o que sou diante de Deus e de mim próprio/a (Sl.50). A reiterativa aceitação da minha biografia e circunstância leva-me a olhar-me à sua luz e a desvelar os meus desvios e simulacros, metamorfoses e envernizamento. Pode suceder também que, perante aqueles/as com quem partilho comunidade e vida, possa ir sendo "humilde" aceitação das minhas limitações e fragilidades e mais verdade feita mansidão e acolhimento.

Esta nudez lembra a "humildade – verdade" de que fala Teresa, aquela que Henrique de Ossó colocou como petição diária da teresiana, na oração da Companhia: "que me conheça e te conheça".

Na verdade, só o conhecimento do Deus de Jesus, nascido da contemplação do Jesus do evangelho, pode espelhar o conhecimento da sua obra: o verdadeiro conhecimento de mim mesma. É uma possível leitura e desafio quaresmal.

Mª Fátima Pires, stj