Mudam-se os Deuses...

deusapeixeO norte-americano David Molineaux apresenta, com base em dados arqueológicos e paleo-históricos de arte, a tese de que a violência e a guerra se generalizaram a partir do Neolítico.

As estátuas de divindades femininas (Áustria, 25.000 a. c.; Turquia, 7000 a. c.; Juguslávia em 6000 a. c. a deusa-peixe em 4.000 a. c. a deusa-pássaro; também nos chega, na mesma altura, a deusa-pássaro no Egipto, bem como a deusa das serpentes, entre 2.500 e 2.160 a. c.), e o testemunho da faustosa civilização minóica, patente no palácio de Knossos, onde uma pintura de mulheres foi denominada "as parisienses", são argumentos bem fortes para essa tese. O reino de Minos, apresenta-nos uma civilização não patriarcal, uma civilização dita biocêntrica.

Ao contrário do patriarcalismo, cujos valores máximos assentam na apropriação e no controlo, marcado por quatro dominações – económica, político-militar, patriarcal e ecológica -,numa mentalidade de "tudo ou nada", a civilização biocêntrica caracteriza-se por uma quase ausência de guerra, a inter penetração entre os humanos e o cosmos, uma relativa igualdade socio-económica e um elevado estatuto social da mulher.

A Bíblia também localiza a emergência do patriarcado na altura em que o povo, à imitação dos seus vizinhos, exigiram ter um rei. Nessa altura, teve que ser drástica a estruturação de uma só cultura e um só Deus, em volta de um rei, para evitar a variedade de fidelidades, subordinações numa total UNIFICAÇÃO.

O conhecimento das culturas do meio oriente, da altura da Bíblia, são testemunhas de mitos da criação, próximos dos que nos chegaram pelos textos sagrados. Felizmente as mentes já estão esclarecidas pela exegese mais recente, longe dos tempos em que era sustentada como verdades absolutas.

O papel da serpente – astuta e "quase divina"- apresentada no Génesis, difere do papel que lhe era atribuído entre as culturas circundantes: divindade da fecundidade, do renascimento, possivelmente necessária para sustentar o patriarcalismo, que se apropriou da verdade, através do controlo e da dominação: só existe um caminho certo na política, na economia e na religião, pelo que são necessárias as cruzadas, as inquisições, os holocaustos e campos de concentração, as limpezas étnicas e "salvaguardar" a segurança mundial, atacando...e tornando bastante real a afirmação de que o patriarcado é a patologia da civilização ocidental e faz da nossa civilização uma cultura necrófila.

Ganha força, neste contexto, a sentença do autor da "autopoiese", o cientista chileno Humberto Maturana: " quando a agressão, a competição, a luta, o controlo e a dominação se tornam constitutivos de um modo de viver numa dada cultura, os humanos que a constituem adoecem".

Haverá maior diversidade em criatividade, jogo, entusiasmo, do que a do nosso Deus Criador que VIU que "TUDO ERA BOM"?

Mª Fátima Pires