Diversidade E Diálogo Intercultural

dialogointerAtribui-se à antropóloga Margarett Mead a seguinte sentença: "em cada cultura há um relato das origens".

Neste nosso mundo, dizem, existem 10.000 línguas pelo que, cada uma supõe uma cosmovisão. A propósito, poderemos perguntar-nos sobre qual é a nossa cosmovisão. E ao que nos referimos ao dizer "nossa"? A este meu país? Ao cidadão nacional? Aos que têm a sua residência entre nós? Aos que, mesmo sem papéis, trabalham e vivem efectivamente entre nós? Que pretendemos afirmar, quando a TV mostra a inédita chegada de uma embarcação de clandestinos ao Algarve? A que nos referimos, quando o governo manda vir e confere cidadania a uns desconhecidos de uma determinada parte, enquanto indeterminada quantidade de estrangeiros solicitam, há anos, legalização? Terá a ver com a multiplicidade de idiomas que se escutam pelas ruas ou nas superfícies comerciais? Que é isto se não diversidade cultural? Que mensagens nos chegam por estes e outros factos da vida e que pistas nos dão sobre o que realmente somos? Pretendêramos colher todas as opiniões e equivaleria – não digo a 10.000 pontos de vista – mas, de certo, a um número a que nem sequer as estatísticas conseguem responder.

Numa cultura, supostamente homogénea, existe uma infinidade de subculturas. Cruzamos o país e escutamos as notícias, fidedignas, dos meios de comunicação e obtemos um país dividido, onde se cumpre a mesma assimetria do planeta, que divide o Norte e o Sul. Curiosamente, aqui os dados invertem-se. É que este norte é onde as auto-estradas e itinerários principais não chegaram a perfurar o relevo - "endireitando veredas"-, unindo os vales e agilizando o espaço-tempo de ir, além das urgências fechadas, dobrando curvas e contracurvas escorregadias e chegar "a tempo"à solução do problema de saúde; é o dos "centros de tempos livres", junto das paragens das carreiras que levarão os alunos das escolas básicas, noite cerrada, às terras que deixaram imersas na sombra; é o das fábricas fechadas, o dos pequenos empresários que não aguentaram com a concorrência ou os encargos estatais e fizeram engrossar o desemprego; o dos adolescentes que trocaram uma escola, que lhes não abre o futuro, por uns cobres, que lhes enganam o ócio, ganhando alguns vícios; o da maior natalidade, mais juventude e maior miséria e, por conseguinte, onde as perspectivas e a esperança não cruzam os montes e serras que os circundam. SERÁ EQUIDADE ditar uma lei nacional que se imponha igualmente numa peneplanície e entre os montes?

Escutámos como os barranquenhos reivindicam o reconhecimento do seu dialecto, o reconhecimento nacional da sua subcultura. Toda a cultura inclui sentido e significado, valores e modelos. Mas, além dos aspectos "que aparecem" e podem ser objecto de uma pesquisa objectiva, estão os elementos subjacentes e que são a causa e dão significado aos fenómenos. O estudo do sociólogo José Machado Pais, em 2001, já evidenciou um perfil nacional heterogéneo, facto que outro sociólogo, António Barreto, em 2007, confirma, ao dizer que o "carácter nacional", invenção de alguns escritores e antropólogos, manifesta-se em "traços comuns", pois a gente tende a responder às circunstâncias dentro da cultura.

Esta evidência poderá levar-nos a perguntar, então, qual será a base da coexistência e do entendimento possível entre os habitantes de um país com tanta assimetria e tal diversidade cultural.

O diálogo é a ponte que se estabelece entre dois oponentes. Num mundo diverso, onde "cada um/a tem que reconhecer a igual legitimidade do/a interlocutor/a"- como desejo eu mesmo/a ser respeitado/a (Confúcio sec. VI a.c.) -, como estabelecer uma base mínima essencial, aceite por ambas as partes, como ponto de partida?

Desde Confúcio a quem se atribuiu a "regra de ouro"- não faças aos outros o que não queres que te façam a ti -, a Jesus Cristo que dá um novo mandamento – "amai-vos como eu vos amei" – vêm surgindo opiniões, cada vez mais na linha de que os humanos têm de acordar nuns princípios universais onde todos se sintam incluídos. No século XIX, Kant exprimiu a sua sentença -"age de tal modo que a tua conduta possa tornar-se norma universal"e mais recentemente, no pós II Guerra Mundial, foram proclamados os "Direitos Humanos". Em Chicago (1993), O Parlamento das Religiões do Mundo elaborou a Declaração para uma Ética Mundial e o teólogo Hans Küng escreveu (1998), Uma ética global para a política economia mundiais.

Qual a base do acordo que nos une? Qual a razão do possível consenso? Uns falam de "Ética Mínima", outros, o chileno Luís Pacheco (2006) fala do máximo (de valores) possível de cada lado, aceite por ambas as partes. Esta será a base a partir da qual se inicia o processo negociável, a baliza legítima a aceitar de cada um/a, ao tentar obter o máximo de ganhos. Na mesma linha, a norte americana, Linda Donovan se exprime, ao constituir como ponto de partida, na resolução de conflitos: conhecer e aceitar aquilo que o/a oponente se nega a abdicar e que tem que ser ponto aceite. Só a partir daqui se iniciam as maratonas negociais.

Que significará, nestes moldes, diálogo intercultural, que não se imponha como etnocentrismo ou sociocentrismo? Que esclarece a carta dos Direitos Humanos nessa linha? Qual é o "mímino comum" a reconhecer e respeitar que seja, de facto, imprescindível para trilhar a via do diálogo e da aceitação respeitosa do diverso, em igualdade de circunstâncias? É claro que o direito à vida e integridade da pessoa se constitui como o elemento chave para, seguidamente, prosseguirmos as vias da partilha e da construção do humanismo.

Mª Fátima Pires, stj