Porquê a Opção Pelos Pobres

pobres2No pobre não há só morte, carência, encontramos humanidade, pelo facto de ser pobre. A história de Jesus é a de um judeu marginal, para quem o pobre é representante da pessoa autêntica: homem/mulher novo/as com os que quer descobrir o Reino.

A pobreza, abrangendo quatro mil milhões de humanos, deve ser eliminada, enquanto causa de destruição de pessoas. No entanto, ela imprime um modo de ser humano. Existem dois conceitos vulgarizados de pobre: o europeu, tradicional, clássico e o recente, latino-americano.

Para a Teoria Clássica o conceito de pobre tem uma conotação moral, pois identifica pobreza e mal: é mau ser pobre. Neste sentido, as causas da pobreza podem ser várias:

1. O destino. Assim sendo, ser pobre identifica-se com algo mau. Por isso tem que se acabar com esse estado. Para tal, nascem todas as actividades de solidariedade assistencialista: beneficência

2. A má vontade dos ricos. Se a causa da pobreza se coloca nos ricos, será essencial tratar de os converter: - 400 pessoas são detentoras de todos os bens do mundo...Daqui surge a Doutrina Social da Igreja e os Programas para o Desenvolvimento da ONU.

3. A causa está nos pobres que são preguiçosos e desbaratam. Se esta é a causa, então, importa EDUCAR, promover, de modo que os pobres saiam da pobreza.

4. Sendo a causa é estrutural, isto é, se o sistema social gera os empobrecidos, importa capacitar os pobres para substituírem as estruturas: acabar com a pobreza, nem que seja à força, como sustentam algumas ideologias.

Quais as consequências deste modo de ver a pobreza? Não se valoriza a condição de pobre. Ora, há que separar e dignificar os conceitos de pessoa e pobre. Surgem, assim, vertentes de valorização:

VALORIZAÇÃO HUMANISTA: afirma a existência da pessoa com a característica de ser pobre. O ser pessoa é a marca fundamental: -"pobre, mas honrado!" Neste caso não é reconhecida a dignidade, de si inquestionável, quando a pessoa é rica.

VALORIZAÇÃO RELIGIOSA: aconselha reconhecer a Deus na pessoa do pobre. O mesmo é dizer que, enquanto pobre se carece de valor. Visto que Deus se fez pobre, há que reconhecer e amar os pobres por amor a Deus (!), não por amor aos pobres.

VALORIZAÇÃO TEOLÓGICA: foi a tentativa de Puebla, já que Jesus se fez pobre... Porém, neste caso, também a questão antropológica fica oculta.

VALORIZAÇÃO POLÍTICA: originou movimentos sociais, que se colocaram ao lado dos pobres, na medida em que os pobres engrossavam e davam força à política e não porque os pobres valem por si mesmos.

A concepção tradicional de pobre tornou-se inaceitável e ofensiva, para quem lhe descobriu o valor e a vive livremente.

Para a concepção latino-americana, ser pobre é um dado existencial, aceitando-se a carência como modo peculiar de olhar a vida. À partida, nem é bom nem mau ser pobre. Emerge um conceito novo, que produz uma cosmovisão específica Por que é que Deus escolheu os pobres? Porque se fez pobre? A proclamação de Jesus "felizes os pobres" é convite a fazer-nos pobres e a ter um novo olhar que não desclassifica, mas contribui para que o pobre seja sujeito do próprio destino, mantendo a identidade de pobre. Esta a reflexão dos bispos americanos com o grito de opção pelos pobres, como modo de viver o cristianismo encarnado, assim como numa família se opta pelo doente.

É certo que a consciência das carências poderá conduzir à destruição, isto é, à realização de actos que destroem a dignidade da pessoa, mas a pobreza não se identifica com essa deterioração. Este sentido de pobre não se identifica com as carências, nem com a destruição, pois é de tipo existencial e cultural. Mais: actualmente, o conceito de pobre tem em conta a vivência dessas carências, pois elas determinam uma cosmovisão específica, inseparável dessas carências: aí o seu valor e possibilidade. Como descobrir-se a si, aos outros, ao mundo, sob este olhar? A pobreza, efeito das carências, é, pois, uma condição existencial. Que significam no pobre essas carências?

A mudança de perspectiva tem consequências: antropologicamente, a imagem do pobre torna-se positiva. Como aproximar-se do pobre, identificando a cosmovisão que o caracteriza?

Assumir essa atitude acarreta uma tarefa: comprometer-se em libertar o pobre daquilo que o pode destruir, devido às carências. Opção dos pobres, contra a pobreza. Aí se afirma a sua identidade. Jesus conversou com o endemoninhado geraseno (Mc. 5, 1ss), mas houve custos irremediáveis....

Ninguém pode libertar o pobre. Só ele a si mesmo, porque a pobreza deve-se aos efeitos da carência. Estamos perante uma imagem positiva de pobre, que se torna tarefa de libertar-se da degradação física e existencial.

Ser pobre torna-se missão: assumir os seus valores e lutar contra a própria destruição. A globalização ameaça esta cosmovisão. Só quando o pobre acredita no seu próprio potencial, opta pelo outro pobre. Trabalhar com os pobres tem de tender a que eles vivam os valores da sua classe, lutando contra a própria destruição. E isto faz-se em comunidade: ECONOMIA SOLIDÁRIA é grupo que partilha

As ajudas materiais, geralmente, afundam-nos mais. "Ninguém se educa sozinho e ninguém educa ninguém, educamo-nos uns com os outros" – Paulo Freire. Criam-se, então novas atitudes no trabalho com o pobre: - dar prioridade à relação interpessoal; profundo respeito; - primeiro atender às necessidades básicas: a vida em primeiro lugar (Quais os sacramentos da vida? Como relacionar-nos com eles?); - distinguir entre dar e partilhar, assistir e ajudar.

Enquanto no capitalismo, o pobre tem que ter para valer, no caso actual, porque vale, tem que ter o necessário: tem direito a solucionar as suas necessidades básicas.

Este conceito de pobre dá-nos a chave de entendimento do rico e integra todas as formas de pobreza. É valorizado como pessoa pobre (não porque pessoa).

Existem 4.000 milhões de excluídos. Incorporar os pobres nas nossas categorias do pensamento. É torná-los OUTROS. Sempre existe alguém que nos pode interpelar.

Raúl Rosales, leitura de F. Carrasquilla em "Antropología del pobre"