Para que possam escolher a Vida e Viver...

bairrosÉ urgente Evangelizar nos Bairros Sociais

Para que possam escolher a Vida e Viver...

A propósito da Semana da vida, que decorrerá de 15 a 22 de Maio e que tem como tema, "Escolhe a vida e viverás" (Dt 30,15-19), ocorre-me escrever sobre uma temática que considero urgente nos tempos que correm: Levar o Evangelho aos bairros sociais e zonas degradadas e carenciadas, onde a tentação da "cultura da morte" e o desrespeito pela vida, em todas as suas formas e momentos, se torna, por vezes, visível.

Há muito anos que, devido a projectos sociais onde estou envolvida, percorro, com um bom grupo de cristãos, Bairros Sociais e outras zonas degradadas e carenciadas. Vamos às mais variadas horas do dia e da noite, aparecendo de surpresa e sem avisar. Procuramos, como cristãos, ter um olhar teológico sobre a realidade, tentando ver e ouvir com os olhos e ouvidos de Cristo.

O que vemos? O que escutamos?

Gente desenraizada da sua família de origem, famílias disfuncionais e desestruturadas, com filhos, fruto de várias uniões, com relações de pertença muito fragilizadas. As famílias mais organizadas e com emprego longe do bairro, fazem deste um dormitório, e os filhos brincam, nas ruas sujas e desalinhadas, até altas horas da noite, sendo muitos já pequenos "correios" de droga e de outros tráficos. Podemos dizer que são "órfãos de pais vivos". São adolescentes e jovens de grande abstenção escolar, com muito fraco rendimento, devido aos obstáculos decorrentes da sua precária integração social e cultural na escola.

Há famílias com algum elemento, ou vários, nos Estabelecimentos Prisionais, crianças em Centros de Acolhimento temporário, violência doméstica, situações de alcoolismo, prostituição, etc.

E surge-nos a questão: Porquê?

Ao voltar a casa trazemos a nossa mente e, sobretudo o coração, carregados de desafios e interrogações. Porquê? O que falhou e/ou está a falhar?

E, desde a nossa perspectiva cristã, vamos concluindo: Aqui falta Jesus Cristo, e os estragos causados por esta falta estão à vista: As famílias vivem em união de facto há muitos anos, as crianças não estão baptizadas e, as que estão, raramente frequentam a catequese. Nos jovens e adultos a dimensão transcendente da vida é abafada por mil e um problemas que exigem respostas imediatas, e a procura do que verdadeiramente dá sentido à vida fica sempre adiada. Claro que há excepções e encontramos gente heróica na defesa dos valores da família e da sua Fé. Mas, em muitas, os valores cristãos estão ausentes e o Projecto de Vida proposto nos mandamentos da Lei de Deus é desconhecido. E é nesta ausência dos valores humanos e cristãos que ecoa em nós o grito de S. Paulo:"Como podem conhecer a Cristo se ninguém O anuncia?" que é uma chamada à evangelização. Os que "descemos ao terreno", nestas zonas carenciadas, vamos mais no sentido de minorar situações de pobreza e carência social e falta-nos o tempo para o anúncio específico do Evangelho. Mas o grito de Jesus, "Nem só de pão vive o homem ", cria, em nós, a sensação de que temos de ir mais longe e partilhar do Pão de que fala Jesus, a Sua Palavra, o Alimento por excelência.

Jesus "veio para os filhos perdidos da casa de Israel" e quanta gente perdida nas noites da ilusão, nestas "Galileias" e "margens de Tiberíades" de hoje, onde, como cristãos, somos chamados a escutar Jesus escondido nos outros.

Dizer, hoje, como Moisés, "Escolhe a vida e Viverás" é uma urgência e um desafio bem actual.

Jesus veio para "que tenham Vida, e Vida em Abundância" e, nestas zonas de carências, a tentação da "cultura de morte" é constante, devido a problemas sociais graves como a pobreza, o desemprego, a pequena e grande criminalidade, que em nada favorecem a cultura da vida e o respeito pela mesma em todas as suas formas.

É urgente propor Jesus Cristo, como fonte de Vida, a todos, mas sem esquecer os bairros sociais onde a vida é constantemente ameaçada. Só Ele é a verdadeira Vida e Amor Maior, que pode ajudar na construção de uma nova ordem social, de solidariedade, de verdade, de tolerância e entreajuda na Caridade. A grande crise actual é crise de Amor. O egoísmo em que nos entrincheiramos leva-nos a pôr "grades" à volta das nossas "Vivendas", alarmes nos nossos "Condomínios" e fecha-nos à lógica do dar-se e do oferecer-se, na gratuidade do Evangelho. "Cristo propõe-se não se impõe", diz-nos o Papa Bento XVI.

É urgente sairmos das nossas "capelinhas" de bem-estar e propor Cristo onde Ele está mais ausente, criando espaços para o acolhimento da Palavra, a catequese de crianças, jovens e adultos, com novos métodos e novas formas, mas com grande paixão por Cristo e pela Humanidade.

Que os nossos gestos ajudem outros "escolher a Vida e a Viver"

Maria de Fátima Magalhães stj