A Espiritualidade Do Educador

espeducadorO olhar de um coração iluminado

Antonio Botana, fsc

1. "DIZ-ME: O QUE VÊS?". O EDUCADOR FACE AO ALUNO

O educador é um mediador, seja consciente disso ou não. O mediador na aprendizagem do aluno, mas também na integração deste na sociedade. Mas, que tipo de mediação exerce? É fundamental colocar-se esta pergunta, que está muito relacionada com o tipo de espiritualidade que dá sentido ao meu afazer. Por isso vamos chamá-la aqui "espiritualidade da mediação".

A espiritualidade da mediação começa no olhar do educador. O aluno está aí, em frente, e o nosso olhar dirige-se a ele. Dizer "olhar" é como dizer "o espírito" com que contemplamos os nossos alunos. A espiritualidade do educador não se estabelece à parte do seu ofício mas justamente nele, ou mais exactamente, nas relações que este implica.

Um conto de sabor oriental para começar a centrar a nossa reflexão:

Certo príncipe tinha três amigos sábios: um era artista escultor; outro era cientista-biólogo, e o terceiro era professor. Um dia teve curiosidade de conhecer e comparar seus modos de olhar as coisas, e pô-los à prova desta forma: Por separado, foi-os chamando um a um ao jardim, junto ao pequeno lago ali no centro. A cada um fez a mesma pergunta, apontando o lago: "Diz-me: o que te chama mais a atenção?"

O escultor antes de responder deu uma volta ao lago, admirando o varandim de mármre belamente esculpi¬do. E respondeu: "gosto do lago, porque o varandim está muito bem talhado".

O biólogo observou o varandim, mas centrou o olhar no interior do lago: a água, os nenúfares, que se abriam à superficie, os peixinhos coloridos que nadavam entre as algas, os insectos que flutuavam. Sondou a vida no fundo...e respondeu: - "o melhor do lago é a vida a bulir nas suas águas".

O professor, como os anteriores: observou o varandim, as águas e respondeu: -"o varandim é belo. Mas a vida pujante do lago, é sem dúvida o melhor. Porém, o que mais me impressiona é a luz". - "A luz?" - estranhou o príncipe. "Sim! – respondeu o professor. Observa esses jogos de luzes e sombras a realçar os relevos do varandim: a luz faz o teu lago diferente, de manhã, ao meio-dia e ao entardecer.

Observa os raios de sol que se filtram até ao fundo do lago:

tudo fica claro ao seu contacto. O mais importante é que a vida do lago cresce e transforma-se, graças à luz. Amanhã será diferente de hoje; é imprevisível o que cada dia encontrarás nele, porque a luz acrescenta à vida o mistério".

O conto que encabeça esta reflexão dá-nos já a entender que o que percebemos, inclusive o que esperamos do aluno, está em franca relação com o nosso "olhar".

Vamos descartar desde o princípio alguns "olhares" em que não merece a pena deter-se: é o de quem passa junto do lago, inclusive se senta no bordo ou se entretém a remover-lhe as águas, mas sem lhe prestar o mínimo interesse; ou o de quem se aproxima do lago para levar os peixes ou cortar os nenúfares... Felizmente, não abundam entre nós os "educadores" (!) que vêem na profissão apenas um medíocre meio de sustento, os que consideram os alunos como estorbos inevitáveis a manter afastados o mais possível, ou mesmo os que, cortêsmente, os vêem como "clientes" com os que se negoceia friamente os serviços que se requieram.

Estes são os olhares que poderíamos qualificar de negati¬vos.

Há outros olhares mais frequentes; diríamos que quase inevitáveis em muitos educadores. Estão diante dos alunos com uma atitude positiva, inclusive de serviço e abnegação; mas com o objectivo mais ou menos consciente de obter alguma compensação, algum benefício -e não nos referimos já à lógica remuneração económica-: pelo menos, respeito; melhor ainda, admiração; a ser possível, afecto. E se isto não se consegue, se o lago não nos premeia com a sua frescor, sobrevem a sensação de frustração.

Todos estes "olhares", muito humanos por certo, constatamo-los, mas não nos ocuparemos delas nesta ocasião. Vamos aos que se apresentam como positivos, construtivos para o aluno; os que se adoptam por uma clara consciência de mediador no processo educativo. Mais ainda: consideramo-las dentro do "itinerário" do educador, e susceptíveis, portanto, de uma conversão. Esta é a afirmação sobre a que baseamos este tema: o "olhar" também se pode converter.

a) O olhar do escultor

Contam esta anedota de Miguel Angel, o famoso artista do Renascimento, mas poderia referir-se a qualquer outro: Foi ele mesmo a escolher o bloco de mármore sobre o que haveria de esculpir o seu "Moisés". Perante o bloco ficou como extasiado, olhando-o. "Aqui está Moisés", disse; e perante a extranheza dos que o acompanhavam acrescentou: "Está aqui dentro. Basta tirar o que sobra para que apareça".

O "olhar do escultor" encontra-se com frequência nos educadores a respeito dos seus alunos. Há nela dois aspectos muito positivos: Em primeiro lugar, o olhar do educador não se detem perante as limitações actuais do aluno, a sua realidade presente, mas vai mais além, ao que o aluno pode chegar a ser. É, portanto, uma atitude construtiva, optimista.

Em segundo lugar, confía-se nas potencialidades do educando para o seu desenvolvimento; tenta-se descobrir e pôr de manifesto tais potencialidades. Despertam-se expectativas de superação (conhece-se em pedagogia como o efeito "Pigmalião").

No entanto, há um grande "mas" para opor a este olhar: o escultor trabalha o bloco de pedra a seu gosto; modela-o segundo a própria vontade... e isto não é válido quando o que se esculpe não é um bloco de pedra mas uma pessoa em evolução.

O "educador-escultor" tem o risco de tentar fazer o educando à sua imagem e semelhança ou, ao menos, segundo ele o imagina. Esquece-se de o escutar, de prestar atenção ao que o educando pensa sobre si, suas opiniões, seus sentimentos, as motivações da sua actuação... Tende a esquecer que o aluno é o último responsável da própria formação, desde a liberdade, bem ou mal empregue. E, sobretudo, ao "educador-escultor" escapam-lhe muitos imponderáveis que pertencem ao mais íntimo do educando, aqueles que o constituem precisamente em ser vivo, em pessoa única e diferente a qualquer outro, com os seus gostos e ilusões, com as suas esperanças e temores, com o que ama e o que odeia; mas também se fica na penumbra o jardim onde está o lago, i. e., o meio familiar e social que, juntamente com a escola, contribuem ao desenvolvimento e maturação do jovem.

b) O olhar do cientista

Uma diferença salta à vista de imediato entre o olhar do escultor e a do biólogo e é que este não pretende como aquele transformar a realidade à vontade própria: antes respeita-a porque a reconhece em quanto vida, e tenta favorecer o seu desenvolvimento e crescimento. Duas atitudes bem positivas, por certo.

Mas descrevamos um pouco mais o "olhar científico" do biólogo, do "educador-biólogo": Como cientista que é, tenta analisar objectivamente a realidade do educando; observa os seus acertos e erros, suas tendências, suas possibilidades; prevê as suas reacções; prepara as "condições adequadas" para conseguir o resultado preciso na conduta do educando; tenta controlar sistematicamente todas as variáveis para conseguir o avanço desejado no processo de aprendizagem... Até aqui, não há nada que objectar.

Claro que, acto seguido, o educador-cientista tende a catalogar, classificar os alunos, segundo as capacidades, as respostas, o avanço no processo, segundo a docilidade... E o passo seguinte é a "selecção": o "inútil" tende a rejeitar-se ou, ao menos, a descuidá-lo para não perder tempo; trabalha-se com mais gosto com os que "respon¬dem" bem...

O mau do educador-cientista é que o olhar é necessariamente controladora, positivista, lógica... e o grande risco é eliminar o mistério, ou simplesmente ignorá-lo: o mistério da liberdade do homem, por um lado; mas também o mistério da graça de Deus, que produz surpresas no desenvolvimento humano, que provoca o inesperado, que valoriza o que aos olhos do homem passa inadvertido. O olhar "científico" também não é capaz de perceber a trajectória vocacional da pessoa, que supera os esquemas da natureza e depende em boa parte dos valores que a pessoa descobre e assume...

c) O olhar do professor

Que vê o professor, o educador-professor? Mais que ver, teremos que dizer que intui a pessoa em toda a complexidade.

Não prescinde dos acertos do "escultor" ou do "cientista"; ainda que às vezes não chegue a ser tão conspícuo. Mas o grande acerto está na profundidade e a amplitude do seu olhar e, sobretudo, na margem aberta que deixa ao Mistério -a luz-, activa no interior de cada pessoa.

O olhar do professor não "quadricula" o educando: sabe que é uma pessoa em evolução, cujo desenvolvimento humano depende da interacção com o meio social, e que este é muito complexo.

Sabe que o futuro da pessoa não se joga só na aprendizagem intelectual dos "programas escolares", senão na capacidade de se situar crítica, criativa e solidariamente na sociedade, na aquisição de destrezas de todo tipo, na assimilação de valores, na capacidade de tomar decisões livre e responsavelmente...

Além disso, o professor que acertou em ver a luz na própria pessoa, contempla também a luz actuando na pessoa do educando: é o olhar da fé, que descobre uma nova dimensão, a transcendência do homem, inclusive do mais incapaz -humanamente falando-. Sucede então que o olhar de Deus "filtra-se" no olhar do educador, mesmo sem este o saber éste.

2. OLHAR COM OS OLHOS DE DEUS

Entramos noutra dimensão, mas não noutra galáxia. Continuamos a ver o varandim e as águas do lago, mas agora caímos na conta da luz que o ilumina.

Digamo-lo com outro símbolo tirado da Bíblia: trata-se de um relato que encontramos no começo do Êxodo (capítulos 3 e 4), carregado de imagens e simbolismo. A personagem é Moisés: fugido do Faraó, está a cuidar do rebanho, mas não pode esquecer-se dos israelitas a quem viu oprimidos no Egipto. Com o rebanho chega ao Horeb, a montanha de Deus, e ali, junto da "sarça ardente", ouve a voz de Deus que o chama e lhe diz: "Vi a aflição do meu povo no Egipto, e escutei o clamor que lhe arrancam os capata¬zes, pois conheço os seus sofrimentos. Baixei para o libertar da mão dos egípcios... Agora, pois, vai, eu te envio." (Ex 3,7-10).

Moisés tinha visto essa situação de escravatura dos israelitas, mas não a tinha contemplado com os olhos de Deus. Agora, ao sentir-se em "terra sagrada", cai na conta de que Deus está a olhar pelos seus olhos (os de Moisés) e baixa para libertar os israelitas, i.e., envia Moisés a libertá-los.

Desta forma, "olhar com os olhos de Deus" tem como consequência o "ser enviado para dar resposta às necessi¬dades descobertas, onde Deus quer ser servido". Encontramos a nossa vocação como chamada de Deus a servi-lo nessa situação (que para nós é a educação dos jovens), que vimos com os olhos de Deus e escutamos com os seus ouvidos.

Adentramo-nos nesta nova perspectiva que nos abre a história da Salvação. Nessa perspectiva podemos ver Deus presente no nosso afazer quotidiano e presente nos jovens a quem Ele mesmo nos envia. Aparentemente tudo pode continuar igual, mas na realidade a luz que descobrimos faz-nos ver tudo com outra atitude.

Graças à fe que o ilumina, o educador cristão será capaz de ver em cada jovem essa dimensão misteriosa de filho de Deus, amado e convocado por Ele para se integrar em Jesus Cristo como seu membro.

Mas não podemos pensar no olhar de fé como algo que "se possui ou não se possui", mas como um processo onde cada um se situa e por onde vai avançando. Requer um esforço de ascese, de vigilância sobre si, de análise e discernimento das próprias intenções... e assim o olhar se vai transformando. A isso nos ajuda alimentar¬-nos frequentemente da Palavra de Deus e da oração, e viver na presença de Deus, recordando-a no nosso interior como referência de quanto fazemos.

3. UMA LUZ NO CORAÇÃO

Completemos agora estas duas imagens que utilizamos para expressar a espiritualidade do educador, o olhar e a luz. O olhar do educador que descobre a luz nas outras pessoas, nos alunos, é porque se trata do olhar de um coração iluminado.

Serve-nos de referência a experiência de S. Paulo. Quando ele tenta de expressar o que significa para ele o ministério que Deus lhe confiou, de difundir "a luz do evangelho de Cristo" (2 Cor 4,1-5) di-lo assim: "Pois o Deus que disse: Brilhe a luz de entre as trevas, é o que acendeu essa luz nos nossos corações, para fazer brilhar o conhecimento da glória de Deus, que está reflectida no rosto de Cristo." (2 Cor 4,6).

De igual maneira, a experiência sobre a qual se desenvolve a espiritualidade do educador cristão é uma experiência de luz. Notemos que essa "experiência de luz" está associada à imagem da criação. Porque a obra educativa é um contributo para a obra criadora de Deus. Deus continua a criação por meio do educador.

Como poderíamos traduzir hoje "ter iluminado o coração"?

Antes de acudir a outras formulações mais religiosas e para que estas não nos fiquem vazias de significado, comecemos pelo mais simplesmente humano; um coração iluminado é um coração que descobriu o sentido profundo da vida, um coração que vive com entusiasmo no momento presente sem se deixar vencer pelos problemas de cada dia; mais ainda: um coração iluminado é aquele que descobriu o gozo e a força de amar e é também aquele que optou com decisão pelos valores que constroem a pessoa e permitem que a humanidade possa melhorar...

Quem passou na vida por alguma etapa de obscuridade, de sem-sentido, de falta de entusiasmo,... e viu de repente aparecer a luz, provavelmente não tenha reparo em descrever a sua experiência como um voltar a nascer, como se na sua pessoa voltasse a repetir-se a criação. Compreenderá então a força desta imagem empregue por S. Paulo ao referir-se à narração do Génesis, - no primeiro dia, Deus criou a luz... – ao empregá-la nós quando tentamos de descrever esta experiência fundante do educador cristão, mediador da luz entre Deus e os seus alunos.

Quando uma luz assim se acende no coração, não pode ficar guardada. Necessita de se comunicar. Então nasce realmente o educador. O bom educador é o que comunica sentido, entusiasmo, amor, valores,... para além de todos os conhecimentos e técnicas.

E o educador cristão é, simplesmente, que encontrou a raíz, a fonte dessa luz que ilumina o coração e a chama pelo devido nome, que é Deus. Ou antes, Jesus, que é o Deus encarnado. E como educador, depois de comunicar sentido, entusiasmo, amor, valores,... mostra a origem de tudo isso e pronuncia o seu nome cristão: Jesus e Evangelho e os aponta como destino final de todo o ensino, porque o é também de toda a vida.

Fixemo-nos nos "níveis de experiência" que estão presentes nesta mediação da luz:

1º. O educador descobre a luz no seu coração (o sentido da vida...)

... e transmite-a aos alunos.

2º. O educador descobre a origem dessa luz,

... e aponta-a aos alunos como origem e destino.

Agora, situado nesta dinâmica de fé, aparece o terceiro nível:

3º. O educador descobre-se como mediador da luz.

A consciência de ser mediador,

- remete-o a um Deus que é protagonista, criador, que está presente na história, mas que actua pelo ministério dos homens;

- e faz que se sinta eleito por Deus para anunciar o seu evangelho aos alunos.

Neste nível, o da consciência da mediação, é onde se desenvolve com mais força a espiritualidade do educador. Esta não busca a sua motivação no desejo de ser mais perfeito -numa perfeição que centrada narcisisticamente em si mesma-, mas na necessidade de ser um bom mediador da luz, o melhor possível.

Para dialogar em grupos:

Analisemos a nossa espiritualidade de educadores

1. Que olhar predomina nas nossas relações com os alunos e alunas: a do escultor, do cientista, do professor?

Olhar crítico ou compassivo? Olhar que discrimina e rejeita os "maus", ou que busca salvar e facilitar o desenvolvimento dos mais limitados?

É o olhar do "Deus que salva", que se filtra pelos nossos olhos?

2. Que fazemos a nível pessoal e na comunidade educativa a que pertencemos, para "cultivar o olhar" do educador-professor?

E como crentes, para que o nosso olhar seja, pouco a pouco, o dos olhos de Deus?

3. Qual é a nossa experiência de ser "mediador@s da luz" no nosso lavor educador@? Que dificuldades encontramos e de que ajudas nos valemos para promover essa mediação?

Definitivamente, como desenvolvemos a espiritualidade d@ educador@?

4. Com que outros símbolos ou expressões típicas do carisma herdado de Henrique de Ossó podemos descrever no essencial a espiritualidade d@ educador@?