Ser A Pessoa Que Quero Ser

serapessoasAlberto, 29 anos, trabalha e estuda. Aspira fazer um curso de gerente e posicionar-se numa empresa líder na sua marca. Crê que está bem encaminhado nos seus planos profissionais. Deixou de fazer desporto há dois anos, na mesma altura em que deixou de fazer férias. Vê o filho de seis meses, 15 minutos, de manhã, antes de partir par o escritório. Quando regressa a casa, geralmente depois das 10 da noite, Sebastião já está a dormir. Dedica os fins –de- semana ao estudo.

Ana Maria, 36 anos, trabalha na gerência de sistemas de uma multinacional. Produto de um processo de fusão, trabalha, há 8 meses, uma média de 60 horas semanais, incluindo sábados e alguns domingos. A área em que trabalha é responsável por consolidar os sistemas das empresas fundidas. A incerteza é crescente, e apesar de tanto esforço, não tem nenhuma certeza de que lhe assegurem o emprego. Sabe com certeza é que, nos próximos meses, 80% do pessoal da área sairá da empresa.

Alfredo, 42 anos, está numa depressão aguda. Não se pode levantar da cama e quase nada tem sentido para ele. Há pouco mais de um ano que está sem trabalho, as dívidas sufocam-no, e já nem sequer tem dinheiro para custear o tratamento da depressão.

Estas três histórias têm em comum a percepção de ter perdido, ou a eventualidade de perder algo que se considera fundamental para se sentir seguro e confiado.

Estas três histórias têm em comum desajustamentos ou a gestação de um desajustamento. Isto é, todas as personagens partilham: uma grande distância entre o que são e o que quereriam ser. As reacções emocionais que se desencadeiam por esta experiência pessoal de distância ou brecha recorrente, terminam por enfermar ou ir destruindo o corpo e a alma, gerando um círculo vicioso a que chamamos stress funcional.

Muitos sentimo-nos pesados, cansados, inseguros sobre as forças necessárias para prosseguir a caminhar tal como o estamos a fazer. Provavelmente muitos podem pensar que com maior esforço pessoal se pode fazer frente à incerteza. Então, estudam, especializam-se, esticam a jornada laboral... E não só não sucede nada melhor, podendo mesmo suceder que o cenário piore.

Os desajustamentos que enfrentamos hoje requerem de nós a coragem de declarar aquilo que realmente queremos, desafiar o que nos desvia desse propósito, e a capacidade de pôr de lado, ampliar ou transformar as acções ao nosso alcance em determinado momento. Necessitamos, em suma, de um sentido para os nossos actos.

No entanto, mudar os nossos condicionamentos ou os comportamentos habituais, por muito limitadores que nos pareçam, não é tarefa fácil. Há tempos que me acompanha a pergunta: porque é que o saber não é suficiente para mudar ou actuar de modo diferente? Quais são então as chaves para abrir as portas que unem o conhecimento à acção? Cremos que as emoções são essas chaves.

Que faz que as pessoas e as sociedades cresçam? O sociólogo Sergio Spoerer disse que as sociedades crescem porque são felizes. Da disposição de bem-estar, brotam: a criatividade e a produtividade, mesmo em contextos adversos.

Para conviver com a complexidade que nós mesmos construímos, necessitamos de recuperar a simplicidade, o que é mais básico e essencial para viver, que, por isso mesmo, nos surge transparente e óbvio. Porventura não parece simples conversar, ou descansar, ou gracejar, e dialogar com os filhos? No entanto, hoje, julgamo-lo complexo. A celeridade aprisiona-nos e perde-nos.

A simplicidade da vida que é, ao mesmo tempo, o essencial dela, habita num estado de ânimo de paz.

E é aqui onde se nos abrem opções de planos. A paz emerge da aceitação e da gratidão. Se pudéssemos fazer um processo consciente de aceitação da nossa história como foi, de declarar o que queremos daqui em diante, dando passos nesse sentido, reconciliando-nos connosco mesmos, amando-nos e cuidando de nós, a gratidão pela vida e suas circunstâncias, nos acompanharia com mais frequência. Com esta disposição, tem cabimento a equipagem essencial da vida.

Luz Eugenia Mundana Torré

Directora Centro de Liderança

Universidad Adolfo Ibáñez

Santiago do Chile