4º Retiro Páscoa

retiro

Começamos este último retiro acolhendo e deixando-nos novamente acolher por este Jesus compassivo que faz sua a dor e a realidade de injustiça existente no mundo para o conduzir de novo à vida. Dispomo-nos a deixar que seja Ele próprio a acompanhar-nos, a conduzir-nos sem demasiados raciocínios, pelo caminho da misericórdia, da compaixão, e da entrega sem medida. Jesus não faz grandes e elaborados discursos; a partir deste momento, vai ser empurrado pelas circunstâncias. Mas, faz seu este caminho, como o fez até este momento..."não me tiram a vida, dou-a livremente".

 

Acolhe, neste dia de encontro, a possibilidade de te deixares conduzir por Deus, pede ao Espírito que te leve pelos SEUS caminhos, que te faça dócil à sua voz, que as circunstâncias da vida que hoje vives sejam uma oportunidade para passares da morte à verdadeira VIDA. A morte não tem a última palavra; a realidade, por dura que seja, está repleta de esperança; o Deus compassivo não é alheio à dor da humanidade mas, como diria Santo Agostinho: "O que te criou sem ti, não te salvará sem ti". Sabemos que sem Ele nada podemos fazer; mas com Ele tudo podemos. Confiando na Sua Palavra continuamos o caminho deixando que o Mestre nos ensine.

"ESSE, ACOLHE OS PECADORES E COME COM ELES"

A implicação compassiva de Jesus gera conflito, está a destruir o cerco, está a fazer desaparecer as fronteiras entre o puro e o impuro, está a curar leprosos e mulheres manchadas e normalmente fá-lo ao sábado; pode surgir o pior pois está a destruir a ordem existente na sociedade, baseada numa forte defesa de espaços e de comportamentos legitimados por um deus, que garante a ordem.

Há pessoas que estão inquietas e curiosas; os letrados estão vigilantes pois o comportamento de Jesus pode trazer algo muito perigoso, algo que pode ser satânico: está a derrubar-se o sistema e por outro lado, o império não vê isso com bons olhos.

Jesus faz comunidade à mesa com pecadores e incrédulos; não só cura aqueles que não o merecem, mas salta por cima das leis de honra da sua cultura. Partilhar a mesa é uma ousadia e uma insensatez. A mesa partilhada é só para iguais, para companheiros e família; igualar diante do Deus de Israel a pecadores e a incrédulos, é ir demasiado longe.

Jesus é criticado e desprezado. Neste contexto de crítica e de perseguição Jesus conta-lhes mais que uma parábola; não está para discussões nem desacordos legais, o tema é outro. Diante da alegria da festa partilhada não tem lugar o perder tempo com a lógica da dureza de coração.

"ESTE FILHO DO HOMEM NÃO VEIO PARA SER SERVIDO, VEIO PARA SERVIR E PARA DAR A SUA VIDA EM RESGATE DE MUITOS"

Chegam a Jerusalém e Jesus quer celebrar a Páscoa com os seus amigos sabendo que todos estão cheios de ira; o desconcerto dos seus, os letrados e os duros fariseus que não o suportam, a gente do templo que o vai apelidar de estranho e subversivo e Jerusalém ocupada por Roma não quer que haja revoltas aproveitando-se da multidão de gente que acode às festas.

"Compreendeis o que fiz convosco?"

Preparam tudo na casa de uns amigos e num determinado momento Jesus põe-se a lavar-lhes os pés. Desconcerto. Quer expressar com este gesto que não pode haver nenhum tipo de verticalidade entre eles; Ele é considerado e respeitado pelos seus como mestre e senhor, demonstrou claramente que a sua autoridade não era como a dos letrados e fariseus, pois o único magistério e senhorio que cabe no âmbito do Deus da Vida é o serviço.

Pedro não suporta que Jesus se baixe tanto, não suporta vê-lo aos seus pés, se deixa que o sirvam já não lhe resta outra coisa se não fazer o mesmo, se deixa que o sirvam perde o seu estatuto. Pedro necessita que o seu senhor esteja por cima de todos para que seja o senhor de outros; porque colocando-se a servir, toda a verticalidade na qual está construída a estrutura deste mundo cai por terra.

Jesus com o seu gesto está a dizer-lhe que não é necessário oprimir ao que está por baixo nem lisonjear ao que está por cima para que se sinta importante; pretende dizer que se todos se convertem em servidores se reencontrarão horizontalmente e na fraternidade. Quer uma comunidade de outro estilo, não quer relações patriarcais, quere-as fraternas. Por isso o que vem verá frente a frente a sogra com a nora, o pai com o filho, a mãe com a filha, mas nunca será uma confrontação entre irmãos, será uma destruição das relações verticais e um ressurgir das horizontais. Os discípulos, com Pedro à cabeça, não entendem; ficam com a impressão que é demasiado o que estão a viver e não podem ou não querem entender. Jesus vincula o pão partilhado e a taça brindada à sua própria vida que vai ser entregue; toda a sua vida foi um desviver-se. A partir do momento em que foi tomado pelo Compassivo no seu seio toda a vida de Jesus foi uma vida para os outros.

Jesus depois de cear quer ir rezar; está inquieto, sente que tanta adversidade lhe está a causar angústia. Observa cautelosamente, a dureza de coração que é densa e viscosa, ameaça como uma rede de morte, como uma armadilha de abismo. Na própria ceia um dos seus teve um comportamento inquietante e saiu antes; algo de muito sério se está a preparar contra ele. Jesus quando vai rezar para o horto de Getsémani leva consigo a Pedro, aquele com quem se enfrentou a propósito do seu messianismo e também a João e a Tiago, que lhe tinham pedido os primeiros lugares. Jesus assume que na vida não há atalhos, que o Compassivo o leva à compaixão solidária, à comunidade compassiva com os que sofrem.

Deus não intervém para evitar a adversidade, essa não é a atuação do Compassivo. O Compassivo é quem o empurra para a obscuridade e para as trevas para a condição dos abatidos e dos que sofrem. Jesus acompanhou a solidão da viúva; agora, é Ele que a está a viver, todos o abandonam e não interessa a ninguém; Jesus aliviou os abatidos e prostrados, agora Ele está abatido e prostrado; Jesus aliviou os que estavam possuídos do demónio, agora experimenta que é considerado a atuar por obra de Belzebu; Jesus abraçou os pequeninos, agora sente-se desprotegido até mesmo pelo próprio Deus no qual confiou; Jesus está a afogar-se no mar da vida. Até agora praticou a compaixão, curou e aliviou, agora é Ele que necessita de fortaleza, alívio e compaixão.

"Morro de tristeza..."

Na comunidade Compassiva com os extraviados e com as vítimas experimenta que só passando pela prova da dor com os que sofrem se pode prever a luz. O anjo de Deus consola-o, não evita o sofrimento mas fortalece-o, até ao final, na sua implicação compassiva. Deus não está ausente naquilo que está a acontecer, Deus lá em cima, nos céus, não está indiferente nem apático. Jesus, metendo-se no mar da dor, assumindo o infortúnio dos Santos Inocentes, os perseguidos, as vítimas, está a experimentar que o amor é paixão. O amor não limpo e açoitado pelo descaramento não é amor, é cinismo. A Jesus desterram-no, torturam-no e julgam-no. Eles abandonam-no, elas ficam por perto; depois despojam-no da sua dignidade, humilham-no e violam-no no mais profundo do seu ser. A casta saduceia julga-o e condena-o por blasfemo, não suportam o que Jesus diz e faz, é muito difícil para a pirâmide do sacrifício que é o Templo. O lugar da presença que alimentava as esperanças de Israel converteu-se em cova de bandidos, o templo é mantido pelos traficantes da dor, aqueles que necessitam de se vitimizar em nome de Deus para que a reparação do seu estigma repercuta em lucro para eles, é um círculo infernal que Jesus quis destruir mas ao fim e ao cabo ele é que o trama.

Templo de Jerusalém, Templo de Jerusalém...! Não ficará pedra sobre pedra. O Compassivo não pode aceitar de forma alguma que se negocie com a dor das suas criaturas. O Compassivo não quer sangue, nem cera nem incenso, quer compaixão, quer ternura, quer justiça, quer que as suas criaturas vivam, a dureza do coração cega, perverte; parece mentira que o mal gere tanta escuridão e trevas sobre a criação, tudo está a ficar ofuscado.

Ao império interessa-lhe o que é seu: a ordem pública e os impostos. Não querem conflitos e menos ainda por questões supersticiosas internas dos países ocupados, o poder religioso pede ao Império que intervenha. Há perigo de insurreição e se não houver intervenção, o centro do Império será informado. Ao fim de contas, que importância tem que haja mais um crucificado, a vida não vale nada, a estabilidade é o que importa. Elites sacerdotais e potência ocupante chegam a um acordo. Um poder condena e o outro executa. É assim de simples e de criminoso.

"Dando um forte grito expirou"

Crucificado como maldito de Deus, em terra estrangeira nem sequer merece morrer dentro da cidade santa. Solidário com os que sofrem e com os malditos. Dureza e mais dureza de coração, dizem-lhe que baixe da cruz, que se salve, não sabem que Jesus desde o mais profundo de si mesmo, está a dar vida, e que não baixa da cruz porque colocou-se nas mãos do Compassivo. Tiram-lhe a vida, mas Jesus está a dá-la, não gera violência, nem resistência porque até ao final vai negar gerar sofrimento, o cravo do mal não se tira com o mal, a violência não se elimina com a violência, o domínio não se derruba com outro domínio. O Deus donde se viveu como Fonte de Vida não pode gerar morte, o Deus da Compaixão não pode gerar ódio, o Deus da Misericórdia não pode ver-se como de vinganças, o Bendito não pode maldizer, o Santo não pode gerar mais infernos. Vitima com as vítimas, dando um forte grito expirou. Um silêncio profundo, as suas companheiras estão perto, as únicas que o seguiram e acompanharam, pelejam e choram, fazem comunidade compassiva com o crucificado. Como ovelha levada ao matadouro foi à morte, trataram-no como um instrumento inútil, levaram-no sem terem feito justiça.

Tudo estremece, o grito de Jesus é o grito partilhado no matadouro da história com o grito de inumeráveis vítimas, mas está a acontecer algo novo, pois a partir de agora o Crucificado e os crucificados estão no coração do Compassivo, as vítimas deixarão de ser os vasos expiatórios da ordem sócio religiosa e política, os templos tornar-se-ão problemáticos, os véus dos Lugres Santos rasgar-se-ão, voltar-se-ão a coser e voltar-se-ão a rasgar, é um caminho sem regresso...Tornar-se-á difícil falar de Deus para legitimar o poder opressor. Por conseguinte continuar-se-á a fazer, mas a memória da paixão será um aguilhão no coração de todo o discurso religioso, já não será possível prescindir das vítimas, sempre estarão a incomodar. O sangue de Abel continuará a clamar...

Tudo terminou. Silêncio no coração do Compassivo, dor, a fé de Israel percebeu que a morte dos fiéis dói ao Senhor. Na comunidade do pranto e da luta elas mantém a recordação de tudo o que viveram com Jesus, eles dispersaram-se, tudo se sente como um fracasso, negação, traição e debilidade, feriram o pastor e as ovelhas dispersaram-se.

"NO PRIMEIRO DIA DA SEMANA, MUITO CEDO, ACABAVA DE NASCER O SOL"

Maria Madalena está prostrada, retiraram-lhe o que mais amava, ferida e contemplando os lugares de morte, chora, pois nem o conforto do cadáver tem; roubaram-no ou deitaram-no ao aterro. Busca, pergunta como no Cântico dos Cânticos se viram o amor da sua vida; a aflição não lhe matou o desejo. A Maria, comove-se-lhe o coração e os olhos abrem-se-lhe; sente-se chamada pelo seu nome, sente-se chamada no que tem de mais seu, sente-se invadida por uma infinita Ternura. A gente da lei ao tratar uma mulher como ela, tratavam-na como pecadora, prostituta, possuída. O que está vivo chama-a pelo seu nome, leva-a consigo às fontes da Vida.

O Compassivo estava com Jesus, toda a sua vida tratou as pessoas pelo seu nome; a graça estava no extremo da pena; o que estava morto para os criminosos está Vivo para Deus; o blasfemo para o templo foi a visita de Deus ao seu povo. A que não pode testemunhar por biografia e como mulher sente-se enviada a proclamar que Jesus está com o Deus dos Vivos e é Fonte da Vida, que a sua história compassiva abra os olhos para ver tudo de outra forma. Todo o viver de Jesus se estava a viver nas entranhas do Compassivo. A vida abre-se ao Futuro de Deus, é possível perceber toda a realidade desde a Vida e não desde a morte.

As outras companheiras de Jesus tremem e enchem-se de medo. No mais profundo do seu lamento e dor experimentam o incrível; aquilo que forem anunciar não vai ser acreditado pelos que o abandonaram e não encontram a Jesus no lugar da morte, na sepultura; mas, sentem profundamente que o voltarão a encontrar nos caminhos da Galileia. O sol do amanhecer faz-lhes ver que Jesus foi e é Vida.

O rumor espalha-se pelos companheiros; os que não abandonaram geram vida, o novo dizem-nos de diversas formas e modos porque é novo, o velho diz-se sempre da mesma forma. Jesus foi levantado da morte; a morte não o aniquila. Vivem-no como sentado à direita do Poder de Deus; dizem que se deixou ver e enxugou as sus lágrimas e consolou a sua dor. Para muitos, tudo isto é um assunto de mulherzinhas histéricas, mas para as filhas da aflição de Israel é a sua Consolação e a sua Esperança.

Os companheiros partiram. Jerusalém foi o estrondoso fracasso; mas, pelos caminhos voltam a encontrar-se com gente e começam a desenganar-se; vão caindo na conta, juntamente com um companheiro de viagem muito peculiar, que a esperança na restauração de Israel foi fracasso mas qual a razão por que não fracassou toda a implicação compassiva, como futuro das vítimas que Jesus viveu? Estão excessivamente desconfiados. Não acreditam no que contam as companheiras sobre o que experimentaram naquele amanhecer, estava Vivo e iria ter com eles na Galileia; não podiam acreditar nas mulheres. Mas, também é verdade que muitas mães de Israel eram estéreis e geraram vida. E se estivesse a acontecer o mesmo?

O peculiar e estranho companheiro de caminho sabia a história de Israel, recordou-lhes histórias de Deus com o seu povo, dizia-lhes que o Ungido de Deus tinha que assumir a dor do seu povo; mas, estavam demasiado incrédulos para escutar com o coração. Este companheiro diz-lhes que vai continuar a viagem, que os deixa, mas estes não perderam a capacidade de acolher e dizem-lhe que fique com eles, sabem que até Rajab, a prostituta, teve o favor de Deus porque foi acolhedora, e que aos companheiros não se pode deixar partir quando a noite começa a cair.

Pela noite partilham o pão e a palavra, partilham o que recordam enquanto viveram com Jesus e enchem-se de uma profunda alegria: é o Senhor. Caem na conta de que têm de ser fortes na esperança para viver com força e dar vida, que não podem andar pela vida sem confiar naqueles dos quais o mundo diz que não são de confiança. Caem na conta de que quem acolhe ao peregrino e ao forasteiro está a acolher os enviados de Deus. Percebem que partilhando o Pão e a Palavra, Jesus, o que está vivo, se torna presente e anima-os. As mulheres tinham razão. A morte não teve a última palavra, Jesus vive junto do Compassivo e por isso continua vivo na compaixão e na fraternidade.

"A paz convosco"

Outro grupo de companheiros experimenta uma profunda paz e perdão. O Ressuscitado de entre os mortos e exaltado à direita do Poder de Deus que é o crucificado, a vítima inocente, o cordeiro imolado, retorna sobre eles como Paz. Oferecer paz e perdão é património das vítimas, só as vítimas podem perdoar, só os humildes e ofendidos têm o poder de não pagar o mal com o mal. O Crucificado, que é a vítima inocente, retorna sobre eles sem ajustar contas, sem palavras de vingança, não lhes deita à cara que o abandonaram em Getsémani, não repreende Pedro pelo facto de o ter negado, mas pergunta se o ama. Aos que se dispersaram convoca-os e somente lhes pergunta se têm alguma coisa para comer e prepara-lhes a mesa.

A comunidade está a reconstruir-se, invade-os uma profunda paz; não é uma paz como a que o mundo dá, sempre baseada em equilíbrios precários de força, é outra coisa é como sentir-se reabilitado, reconstruido por dentro, fortalecidos. Experimentam que o próprio Jesus os convida a seguir o seu itinerário compassivo, vão a experimentar mesmo não tendo ouro nem prata que podem também eles levantar os abatidos. O Espírito de fortaleza de Jesus envolve-os.

Dão conta que Jesus está com eles, mas não está como antes porque percebem-no como aquele que vive com o Compassivo para sempre. Está no meio deles a fortalecê-los, mas não vive por eles. Centra-os e convoca-os mas não os retém, envia-os a oferecer perdão e paz.

"No nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo"

Em Jerusalém a família de Jesus e os seus seguidores e seguidoras têm a experiência de sentir-se convocados/as por Jesus, apresentam-no como o Ressuscitado de entre os mortos e que vive junto do Pai para sempre, sentem-se possuídos pelo Espírito Santo, fazem comunidade de mesa e de louvor, sentem-no presente entre eles. Depois de tudo o que viveram e experimentaram com Jesus, percebem que lhes mudou a perceção de Deus. Jesus viveu de um modo novo a relação com o Deus de Israel; o seu Deus é agora o Deus que ajuda a viver a implicação gratuita, livre e compassivamente com os desprezados da casa de Israel. A Paternidade e Maternidade de Deus vivem-na como a viveu Jesus, como fonte de vida. Experimentam que Jesus os situou na vivência do Deus de Israel, como um manancial de água Viva que não se esgota.

Vão experimentando que Jesus é o Cristo de Deus, que é o que tinha que vir e que nele se cumpriram as esperanças para os pobres de Israel. Não restaurou o esplendor de Israel, não venceu o Império, não instaurou nenhum reino neste mundo, mas foi, isso sim, a visita de Deus ao seu povo pela qual os pobres, aflitos e excluídos foram incorporados na comunidade compassiva.

Mudou o olhar para perceber a realidade, já não se trata de esperar mais da mesma forma, agora sentem-se fortalecidos para se implicarem do mesmo modo que fez Jesus, nas histórias da dor do mundo. Deus não é uma ameaça de futuro, Deus não está no lugar que há que proteger e dignificar, Deus não é o garante de nenhuma ordem deste mundo, Deus não é o dos ricos e dominadores.

Maria, a mãe de Jesus, que guardava tantas coisas no seu coração, que também se sentiu desconcertada pelo seu filho, mais do que uma vez, agora entende e canta que Deus dispersa aos soberbos de coração, que enaltece os humildes, que os pobres são os seus preferidos, e aos ricos e poderosos despede-os de mãos vazias. Maria canta a Misericórdia que levanta e derruba, para poder caminhar até à terra da justiça e da fraternidade.

Vão, experimentando que Jesus o Salvador, o que não veio a ser servido, mas a servir, é o Senhor. Ao confessar a Jesus como único Senhor tiram legitimidade ao Império e a qualquer outra autoridade que se auto-divinize, começa-se a perceber a profunda libertação de demónios, espíritos, culpabilidades estranhas, opressões, coações, cargas pesadas, obrigações legais, rituais, submissões fatídicas à natureza e aos astros.

O Senhor fá-los ver, com o coração e com olhos novos, que os senhores deste mundo são os pobres e os aflitos, que os crucificados não são vitimas reguladoras da ordem social, que os marginalizados não são escória e lixo, mas são as criaturas preferidas do Pai. Porque o Senhor é o servidor, vão experimentando que só no desviver-se está o viver. Os únicos senhores deste mundo são os pobres de Jesus Cristo.

A palavra "Deus" simplesmente lhes resulta pequena para expressar tudo o que foi vivido com Jesus, por isso a comunidade que se reúne no seu nome começa a rezar e a batizar no nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. A Palavra de Deus rebenta, porque essa palavra sozinha não pode expressar a Comunidade Compassiva e a implicação Compassiva que experimentaram ao viver e orar como Jesus, o vinho novo necessita de odres novos e por isso a partir de agora rezarão a Deus desde Jesus o iniciador e consumador da fé, e não cairão na armadilha, de querer ler tudo o que aconteceu em Jesus desde o "deus" da lei e do templo ou desde o "deus" dos dominadores.

Sentem que Jesus, na sua invocação a Deus como Abba e na sua vivência como filho, foi um presente de Deus. Começam a perceber que esse Jesus que passou fazendo o bem, tão pobre como os pobres, tão compassivo com os aflitos, tão duro a revelar a dureza de coração, pertencia às entranhas de um Deus terno, comunidade de amor. Agora começam a entender que quando Jesus dizia que Deus é o amor, ele pertencia a Deus, porque todo ele foi Amor. Confessar a Jesus como o Filho do Pai é confessar a implicação compassiva do Amor com as suas criaturas. A partir de então, utilizar o nome de Deus para massacrar criaturas é profanar a intimidade de Deus, é blasfemo e impuro.

Esse Deus que é Comunidade de amor e implicação Compassiva já só se encontrará nos famintos e sedentos, nos nus e encarcerados, enfermos...Só fazendo Comunidade compassiva com os que desejam um novo céu e uma nova terra onde habite a justiça, nos encontraremos com o Compassivo manifestado em Jesus Cristo pelo dom da Vida do Espírito Santo.

PAUTAS PARA A ORAÇÃO E PARA A CONTEMPLAÇÃO

- Depois da leitura do texto coloca os papéis de lado e escuta o que ecoa em ti nesse preciso momento. Faz silêncio, recorda algo do que leste e te ajuda a unir-te com o Deus da Vida. Deixa que vá brotando em ti o agradecimento, reconhece-te como uma mulher salva por pura Graça, situa-te como discípula e aprende do Mestre. " Vós chamais-me Mestre e Senhor – e tendes razão porque efetivamente sou" (Jo. 13, 13) Jesus reinventa-se no seu magistério, no modo de o exercer, reinterpreta o seu significado; não ensinará desde cima nem desde fora, mas lavando os pés dos seus discípulos e dando a sua vida por todos nós.

- Em tantas situações de Quaresma vital que vive o nosso mundo, incluso nós mesmas, como fazemos presente o Ressuscitado nessas situações? Está o teu olhar educado e os teus olhos abertos para experimentar nestas situações o Deus fiel e desconcertante?

- A Paz que transmite o Ressuscitado cura os medos dos discípulos transformando-os em alegria. De que paz se trata e que medos cura? Vejo-me refletida neles e a viver uma experiência parecida? Peço ao Mestre interior, o Espírito, que me ensine e me coloque no caminho de o experimentar.

- Acolher a Paz do Ressuscitado é aceitar a SUA pessoa, implicar-se no SEU projeto e levá-lo a cabo com o SEU Espírito e ao SEU modo. Mantém a tua vida diante de Jesus e pede novamente que te faça DISCÍPULA e SEGUIDORA, para "levar o Ressuscitado dentro como Presença, ao lado como Companheiro e diante como Senhor. Este será o teu tesouro, o novo fundamento do teu ser e da tua paz" (José A. Garcia, sj)

- Relê pausadamente os relatos em Marcos do capítulo 14 e em João capítulo 13 até ao final.

E como diz Santo Inácio, ali onde encontrares PALAVRA, fica.