Henrique de Ossó, um rosto de Misericórdia

01Estamos no ano da Misericórdia e é normal que ao refletirmos sobre a importância deste ano pensemos nos nossos fundadores. Como teresiana, dou comigo, muitas vezes a pensar em Santo Henrique como um rosto de Misericórdia.

Aliás não podia ser de outra maneira. Todos os santos, se o são, são porque concretizaram nas suas vidas as obras de misericórdias. Segundo cada carisma, uma ou outra obra de misericórdia estará mais evidente na vida e ações dos fundadores, mas como estão todas interligadas, qualquer fundador é um rosto da misericórdia de Deus.

1-Mas o que é a Misericórdia?

Segundo o papa Francisco, que declarou o Ano jubilar da Misericórdia, "A misericórdia de Deus não é uma ideia abstrata mas uma realidade concreta, pela qual Jesus revela o seu Amor como o de um Pai e de uma Mãe que se comovem pelo próprio filho até o mais íntimo ...A Pessoa de Jesus não é senão Amor, um Amor que se dá gratuitamente. O seu relacionamento com as pessoas, que se abeiram d'Ele, manifesta algo de único e irrepetível...Tudo n'Ele fala de Misericórdia. Nele, nada há que seja desprovido de compaixão e de Amor".

2- Como se manifesta em santo Henrique este Amor Misericordioso de Jesus ?

Percorrendo, no tempo e no espaço, a vida de Santo Henrique percebemos que tudo nele é fruto da misericórida de Deus. É Ele próprio que o reconhece desde a sua infância. Aliás, quando fala um pouco de si, num pequeno folheto que intitula: "Apontamentos da Misericórdia do Senhor" diz: "Tocou-e em sorte uma alma boa, bons pais, piedosa mãe e santos avós". Estas e outras afirmações de Henrique revelam que desde,muito cedo, Henrique experimentou na sua própria vida o poder da misericórida divina.

A procura da sua vocação, um projeto com três alternativas, é também uma história da misericórdia de Deus. Depois de decidir ser sacerdote deseja ser missionário do Amor. Em Montserrat, aos pés de Maria, Mãe de Misericórdia, toma uma decisão: "Serei sempre de Jesus, seu ministro, seu apóstolo, seu missionário de Paz e amor" E ser de Jesus significa, para Henrique de Ossó, a identificação com Ele e o ajuste, à sua vida e ações, do projeto de Jesus: No livro, "Quarto de hora de oração " escreveu:

02"Ter como modelo das nossoas ações a Jesus Cristo, agindo sempre como se Ele estivesse presente...Perguntemos: Como faria Jesus? Como agiria Jesus? Como pensaria Jesus?... E com estes cuidados ir conformando a nossa vida com a de Cristo"

Quando o papa Francisco propõe para o Ano da misericórdia o lema: "Sede misericordiosos como o Pai", está a dizer-nos que devemos ter um profundo conhecimento do Amor e Bondade do Pai misericordioso. Não é ser misericordioso de qualquer maneira, mas "como o Pai". E amar como o Pai é levar o perdão e o Amor até "ao extremo", como Jesus que se entrega na cruz, pela salvação da humanidade pecadora. Henrique conhece, profundamente este Amor do Pai, e desde muito cedo diz: "Afunde-se o mundo antes que ofender a meu Deus, porque devo mais a Deus que a ninguém" . E ele sabe do que está a falar porque tudo nele é obra de Deus e do seu Espírito Santo.

Como Sacerdote, como Fundador, como Escritor, como Pedagogo Henrique de Ossó experimenta em si mesmo a misericória do Pai e deixa-se moldar por ela. Deseja partilhar com os outros o que Deus fez nele. Por isso se torna um sacerdote incansável, zeloso pelos interesses de Jesus . "Quero conduzir à tua presença inúmeras almas para que lhes fales ao coração e as enamores de Ti". Henrique torna-se assim "Templo e Ministro" de Cristo. Como "templo" vive a misericórdia, como "Ministro" testemunha e anuncia essa mesma misericórdia.

3- Santo Henrique de Ossó um rosto de Misesericórdia.

É no livro: "Um mês na Escola do coração de Jesus" que, logo no prólogo, encontro o verdadeiro sentido da misericórdia no carisma de Henrique de Ossó: "Pensar, sentir, amar, atuar, conversar, falar como Jesus Cristo Jesus. Conformar, numa palavra, toda a nossa vida com a de Cristo. Revestir-nos de Cristo Jesus, eis o mais importante na vida de todo o cristão. Porque cristão quer dizer outro Cristo e ninguém se salva se não for a imagem de Cristo..." Quem assim fizer, e devemos fazê-lo todos, vive, já na terra, uma vida de céu, transformar-se-á em Jesus e poderá dizer como o apóstolo: "Vivo eu, mas não sou eu quem vive é Cristo que vive em mim"

É este texto de Santo Henrique de Ossó que, quanto a mim, faz dele um rosto da misericórdia do Pai. Henrique concretizou este texto na sua vida e fez dele o critério para encarnar na sua vida o Amor e a misericórdia do Pai. Homem de uma oração contínua e de uma intensa atividade apostólica bebeu em Teresa de Jesus a espiritualidade da oração e da ação e tudo o que mais deseja, tudo o que escreve, tudo o que diz e as obras que funda são para que todos cheguem ao conhecimento da Verdade, para que todos "conheçam e amem a Cristo e O façam conhecido e amado"

Nos momentos de cruz e contradições, porque passou Santo Henrique, e que todos conhecemos, ele foi rosto da misericórdia de Deus, missionário de Paz, de Amor e de perdão. Paga sempre o mal com a abundância do Bem, não julga mal,nem deixa julgar, as ofensas são para ele, "contradições de bons", procura com afinco ser verdadeiro nas palavras e nas obras, franco na conversação, inimigo de toda a hipocrisia e criando, sempre, laços de comunhão, não temendo dar a vida, para promover, no maior grau possível, os interesses de Jesus, criando união e concórdia e laços de amizade entre todos. Afável, cordial, magnânimo, procura sempre a vontade e a glória de Deus. Viver assim é ser rosto de misericórdia do Pai.É viver o que nos pede Jesus:"Sede misericordiosos como o vosso Pai" (Lc 6,36)

4- E nós, como testemunhamos hoje rosto da misericórdia de Henrique de Ossó?

03O papa Francisco convida-nos a pôr em prática, neste ano jubilar as chamadas "obras de misericórdia". Em todas as mensagens que vai escrevendo insiste nesta prática e, quer a adultos, quer a jovens, vai dizendo que a "misericórdia é muito concreta". No tempo de Henrique a grande pobreza era a ignorância e o ensino não acessível a todos, sobretudo, às mulheres. Por isso, apresente Maria e Teresa de Jesus como modelo de mulheres na formação das jovens cristãs. Pelo ensino integral e pelo apostolado da oração Henrique põe em práticas as obras da misericórdia de "ensinar os ignorantes" e de orar a Deus por toda a humanidade. Hoje existem novas pobrezas, novas carências, novas realidades. É no meio destas realidades que temos que ser testemunhas da misericórdia. A pobreza, a fome, as doenças, a marginalidade, a reclusão, a mobilidade, a ausência de Deus, o drama dos refugiados, etc. são as "periferias" de que fala o papa e que exigem de nós uma atenção especial pela prática das obras da misericórdia, quer "corporais" quer "espirituais", como diz o catecismo. Cada comunidade teresiana, cada centro do MTA, cada grupo de leigos ligados à família teresiana, deve estar atento e dar voz e corpo às obras de misericórdia pois por isto "saberão que somos discípulas de Cristo", se nos amarmos e se amarmos o próximo. "E nisto consiste a perfeição", diz-nos Santa Teresa, "no Amor a Deus e ao próximo...para isto é o matrimónio místico, para que nasçam obras".

Onde a Companhia estiver presente, aí, deve ser evidente a misericórdia do Pai. Nas nossas obras, nas nossas comunidades, nos gestos e atitudes de cada irmã e de cada membro da grande família teresiana, se queremos ser verdadeiros cristãos no próprio ambiente, teremos que ser verdadeiros oásis de misericórdia.

E termino rezando com Santo Henrique: "Ensina-me Jesus a amar como Tu. Quero viver da Fé, da Esperança e do Amor para encontrar a Paz e atrair a Ti muitos corações"

Maria de Fátima Magalhães stj