SANTA TERESA DE CALCUTÁ

01O privilégio e a responsabilidade de a ter conhecido, de ter convivido com ela, rezado com ela e aprendido muito com ela.

A canonização da Madre Teresa de Calcutá, como todos a chamávamos, no passado domingo, dia 4 de Setembro, encheu-nos a todos de muita alegria. A mim, particularmente, deu-me uma grande satisfação interior, porque era alguém que eu conheci de perto, com quem falei várias vezes, ao lado de quem rezei e de quem recebi uma grande advertência, que me doeu na altura, mas que mudou muito a minha forma de pensar e de atuar junto dos mais desfavorecidos e dos mais fragilizados.

Em muitas canonizações, os santos são-nos distantes, sabemos muito pouco deles e o que conhecemos é por aquilo que lemos nos meios de comunicação. Mas a Madre Teresa foi para mim, muitas vezes, companheira de caminho, e é por isso que sinto o dever de partilhar o muito que aprendi dela ao longo da minha vida, não por aquilo que li sobre ela mas por aquilo que presenciei estando a seu lado.

 

O meu primeiro encontro com a Madre Teresa foi em Roma, creio que em 1980, numa jornada mundial da Juventude onde participei com jovens da diocese de Évora. Num encontro com alguns jovens e alguns animadores da pastoral Juvenil, dei por mim lado a lado com a Madre Teresa. Ali estava ela com o seu terço, sempre na mão e o seu saco de pano gasto, com duas pegas de madeira, levando consigo muito pouca coisa. Magra, rosto marcado pelas rugas mas revelador de uma mensagem de Deus que nos tocava a todos. Como o Papa tardava em chegar a Madre Teresa disse, em inglês a uma outra irmã da sua congregação que estava a seu lado: "Vamos rezar". E começaram as duas a balbuciar em voz baixa as contas do rosário. Aquele, "vamos rezar", da Madre Teresa tocou-me bem fundo, a mim, que estava distraída e aproveitava o tempo para olhar para tudo e todos. Senti naquele momento que o segredo do apóstolo está na oração e é nela que recebemos a força para andar pelo mundo levando o amor de Deus aos mais excluídos, como foi o caso desta santa do nosso tempo. Ela que vai dizer mais tarde " que as mãos que ajudam são mais sagradas que os lábios que rezam" sabe, por experiência, que as mãos não ajudam se o coração não reza. Aliás sempre que me encontrei ao lado da Madre Teresa ela rezava. A oração era pois a força da sua ação ao lado dos mais pobres e excluídos.

02Encontrei-me com a Madre Teresa na Comunidade de Taizé (França) também num encontro mundial de jovens. O sorriso da Madre Teresa, a sua simplicidade, o seu amor a Jesus, que transparecia na paz do seu rosto a todos cativava. Mais uma vez me encontrei com ela nas muitas horas de oração, no testemunho que dava aos jovens, na sua presença junto ao irmão Roger, fundador da Comunidade de Taizé. Uma criança sem olhos, chamada Jacinta acompanhava muitas vezes a Madre Teresa como a dizer-nos que a sua missão era transportar a Luz de Jesus, pelo mundo, não com muitas palavras mas com gestos e atitudes. Numa conversa a sós com ela perguntei-lhe com era o seu segredo de santidade. Respondeu-me em francês: "C'est l' Amour de Dieu." Madre Teresa era a mulher que transportava consigo o Amor de Deus e que o transformava em obras, ações concretas sem teorias e considerações abstractas.

Tive a sorte também de me encontrar com a Madre Teresa e o irmão Roger no Mosteiro dos Jerónimos em Lisboa. Creio que foi em 1987. Mais uma vez os dois rezavam e tinham junto de si a pequena Jacinta, a menina sem olhos. A 03presença carismática dos dois, fazia-nos sentir que Deus estava ali a mostrar-nos que a santidade é possível e que passa por uma entrega absoluta ao Senhor servindo-O nos mais pobres, nos mais carenciados, naqueles que incomodam e que ninguém quer.

Mas o maior ensinamento da Madre Teresa tive-o em Roma quando nos anos 1993 e 1994 estive, em Roma, na nossa casa geral. O trabalho que fazia era muito exaustivo pois tratava-se de um trabalho de investigação sobre o nosso fundador e os princípios da Congregação. Para mudar um pouco de atividade e descansar de uma semana dentro de uma biblioteca, passava o dia de sábado na casa "Dono de Maria", da Madre Teresa, que se situava no estado do Vaticano e que lhe tinha sido oferecida pelo Papa Paulo VI. Essa casa tinha uma residência para cerca de 60 mulheres que antes viviam na rua, um refeitório onde para além das mulheres comiam diariamente mais de 50 pessoas e todos os que batiam à porta se não tivessem já lugar no refeitório, levavam sempre um saco com comida para comerem na rua.

A mim tocava-me fazer sandes, separar o que ia chegando dos hotéis e mercados, organizar por ordem de prioridades de consumo, etc. Aconteceu que numa manhã de sábado estava eu sozinha separando comidas e bate um pobre à porta dizendo que tinha fome. Sem pensar muito preparei-lhe um saco com comida e, quando caminhava para a rua para o entregar vinha a sair da capela a Madre Teresa, sempre com o seu sorriso e o seu terço na mão e perguntou-me onde ia. Disse-lhe que ia levar um saco de comida a um pobre que estava à porta. A Madre Teresa pegou-me no saco, verificou o que estava dentro, olhou para mim, olhos nos olhos, e disse-me: "A irmã dava isto a Jesus"? E voltou comigo à cozinha e preparou ela o saco. Em vez das duas sandes de carne que eu meti no saco ela meteu uma de carne e outra de peixe. Em vez das quatro madalenas que eu meti ela retirou duas e meteu duas peças de fruta, em vez dos dois sumos ela retirou um e colocou uma garrafa grande de água. Depois veio comigo até junto do pobre, olhou-me, fixamente, e disse-me: "Os pobres são Jesus e, por isso, devemos dar-lhes sempre o melhor". Naquela manhã de sábado compreendi, como nunca a frase do Evangelho de Mateus 25: "Tudo o que fizerdes a um destes mais pequeninos a mim o fazeis". E mudei a minha forma de estar junto dos mais pobres e carenciados. Eles são lugar sagrado, onde Deus habita e a nossa postura junto deles tem de ser de um profundo respeito e de um profundo Amor. Eles devem colher junto de nós um olhar cheio de misericórdia, de apreciação e como diz a Madre Teresa de "umas mãos cheias de Amor"

04Agradeço a Deus a graça de me ter cruzado, tantas vezes, com a Madre Teresa de Calcutá e de, com ela, ter aprendido que a verdadeira oração e a autêntica caridade caminham juntas. Que ela desde o céu nos continue a dizer que os pobres podem ser os "nossos verdadeiros mestres" e que na "noite escura" da nossa vida, que ela também experimentou, saibamos descobrir a Luz de Deus nos que precisam de ser amados, cuidados e queridos. Ele está ali onde as palavras não interessam pois só o Amor fala. E continuemos a escutar o que nos disse quando esteve em Lisboa em 1982. "Façam algo de belo por Jesus."

Maria de Fátima Salgado Magalhães stj