Retiro - Construir A Mesa Do Reino À Sombra Da Cruz

banquetereino

Meditação sobre o Documento Capitular

Florentino Nonay, sacerdote

INTRODUÇÃO.

O documento final do nosso Capítulo Geral, "Feliz aquele que toma parte no Banquete do Reino", assume o compromisso da Companhia de Santa Teresa de Jesus: trabalhar para pôr a mesa do banquete do Reino nas estruturas deste mundo onde vivemos.

Um mundo que vive um momento difícil e crítico, embora ofereça um horizonte inesgotável de possibilidades, mundo que devemos saber acolher com o amor misericordioso de Cristo e nele trabalhar, na Evangelização que a Igreja está obrigada a desenvolver.

Para isso o documento não receia, à hora de pedir às nossas responsáveis eleitas que assumam os riscos das reformas necessárias, dando continuidade ao trabalho já empreendido, sem deixar de ser fiéis ao próprio carisma e em obediência à ação do Espírito em nós.

1. O PROJETO DE JESUS: O REINO DE DEUS

O projeto de Jesus não foi outro senão anunciar e realizar o Reino de Deus entre os homens. É a missão que o Pai lhe encomenda e que Ele realiza em obediência filial. "Completou-se o tempo e o Reino de Deus está perto: arrependei-vos e acreditai no Evangelho". Com estas palavras começa Jesus a sua missão, tal como narram os Evangelhos. Mc.1,14-15. Mt. 4,17.

Jesus realiza esta missão com ensinamentos, ações e milagres, a que o Evangelho de S. João chama sinais. As parábolas são a linguagem mais usada por Jesus para realizar esse anúncio, os milagres, sinais que confirmam e testemunham que o Reino de Deus já está entre nós. Ambas as linguagens têm um espaço comum onde se realiza o anúncio: o espaço dos pobres. Os pobres, os humilhados, os doentes, os carenciados, as prostitutas e todo o tipo de marginais aos quais o Reino é anunciado, são o sinal vivo da chegada definitiva da salvação de Deus. Por isso, Ele fala com autoridade, não como os mestres da lei. A sua autoridade está na sua coerência, no seu estilo de vida: vive com os sem teto, entre os deserdados da terra.

Este aspeto foi recolhido no nosso documento final e convida-nos a situar-nos neste espaço de Jesus.

Mas Jesus, não só anuncia o Reino Deus, Ele é o próprio Reino, já entre nós. N'Ele vemos antecipado o Reino, mesa fraterna, onde todos sem distinção se podem sentar, com a mesma dignidade e sem qualquer tipo de diferenças. A nós toca-nos ser testemunhas vitais e colaboradores desta construção do Reino, enquanto se não realiza plenamente.

2. O REINO DE DEUS EXPRESSÃO DE UM BANQUETE

Uma das figuras utilizadas por Jesus para expressar o Reino é o banquete de festa, banquete de vinhos velhos e manjares suculentos. Assim se expressa nos sinópticos (Lc. 14,15-23. Mt 22,1-10). São João desde outra perspetiva, apresenta Jesus como protagonista de uma festa de casamento, fazendo que o vinho bom corra com abundância, como expressão da plenitude do Reino. Também o Apocalipse, expressa a vitória definitiva de Cristo sobre todas as resistências como as Bodas do Cordeiro, Ap. 19,4-9. De tudo isto podemos salientar duas afirmações que, embora evidentes, não foram ainda assumidas pelos crentes ao longo da história:

• O Reino de Deus é uma festa, não um conjunto de imposições e normas a suportar, esperando o triunfo no final da vida. É festa do amor que o pai sente pelos filhos.

• A ele estamos todos convidados sem exceção. Deus não é exclusivo e quer todo o bem e o melhor para os seus filhos, em especial para os mais carenciados. Jesus teve que enfrentar estas reservas religiosas, já que o povo Judeu se julgava como o único objeto de salvação.

Nesta universalidade só os pobres ocupam um lugar preferencial e o protagonismo que Deus lhes concede é sinal de que o seu Reino chegou. Lc 4 14-21.

3. PÔR A MESA IMPLICA CERTAS EXIGÊNCIAS.

Pôr a mesa do Reino implica una série de exigências, as mesmas que viveu o Filho do Eterno Pai e que levou até ao extremo. Fil 2,5-11 recolhe estas exigências.

• Desprendimento. Temos que nos desprender interior e exteriormente. Deixar cair o desejo de ambição, de domínio, de poder, de estar acima dos outros mas dispostos a colocar-nos no último lugar. Lc 14,7-14.

• Acolhimento. Este desprendimento prepara-nos para acolher o projeto de Deus e também os outros. Não é para a solidão e indiferença, é para acolher em nós toda a realidade e ser nela, fermento de transformação. Jesus desce até ao mais baixo para acolher tudo e apresentá-lo transformado ao mistério da Trindade, colocando toda a realidade no íntimo do eterno amor divino.

• Entrega. Para construir o Reino é necessária uma entrega autêntica como a de Jesus. Jesus entregou-se até à morte e morte de cruz. Por isso Deus tornou fecunda essa entrega, associando a ela o Poder da Ressurreição. A fraternidade de Deus constrói-se com todos os que se entregam sem condições ao projeto de Deus, realizado no Filho.

• O protagonismo dos pobres. A nossa entrega há de ter como principais destinatários os pobres. Eles não estão acostumados a entrar nas festas, ficam à porta a pedir. Nós temos de lhes facilitar o caminho para que entrem como qualquer outro.

4. A CRUZ COMO CONSEQUÊNCIA DAS RESISTÊNCIAS AO REINO.

O Reino de Deus sempre encontrou resistências em todos os estratos da sociedade:

• Religioso: A mensagem de Jesus rompe com a seguridade e os esquemas dos que, apoiados na lei, querem comprar Deus. Uma religiosidade que com as suas normas e rituais manipula Deus e sujeita as pessoas, não construindo pessoas livres, antes condiciona a liberdade em função de um falso "temor de Deus" e um certo medo à "ira divina".

Esta foi a causa que levou Cristo à cruz, condenando-o como blasfemo. Mas este critério continua ainda muito infiltrado na religiosidade atual.

• Político: Os poderes políticos dificilmente suportam uma religiosidade que não esteja ao seu serviço. Não suportam também que se denuncie os abusos e se reclame justiça com os que mais necessitam, pretendendo sentá-los na mesa em condição de igualdade com todos.

Se bem que esta não tenha sido a causa imediata da condenação de Jesus, mas sim a sentença dos religiosos. Esta tem sido, ao longo da história, uma causa permanente de martírio.

• Sociais: No coração do ser humano escondem-se sentimentos mesquinhos que resistem ao projeto que Jesus oferece. É certo que muitos O desejam no seu íntimo; que muitos trabalham por Ele; mas, não faltam os que, de uma forma dissimulada ou abertamente resistem e preferem os privilégios e as honras. Daí que o nosso trabalho deva ser desinteressado, gratuito, ainda que por vezes mal interpretado e até caluniado.

5. ASSUMIR A CRUZ EM OBEDIÊNCIA FIEL AO APELO DO ESPÍRITO

Assumir a cruz é algo elementar para o discípulo de Jesus que se empenha na construção do seu Reino. A cruz não é um sofrimento que acontece ou que nós nos impomos, mas a consequência da não aceitação da mensagem de Jesus.

Jesus fez milagres como sinal de que a dor não é algo que Deus quer ou envia. Contudo, teve que assumir as consequências que a coerência da sua mensagem implicava. Se as não tivesse aceitado e tivesse repelido o sofrimento, desde a sua condição divina, a sua mensagem não seria credível e a sua obra não atingiria a plenitude. Na cruz levou a sua obra até à plenitude, por isso, confirmada definitivamente pelo Pai na Ressurreição.

Essa fonte de cruz pode ter uma dupla raiz:

• As que vêm de dentro: Por vezes vem do nosso interior. Resistências eclesiais, congregacionais, comunitárias. Consequência de incompreensões, medos, invejas, comodidade, falsas seguranças. Estas sempre as mais dolorosas.

• As que vêm de fora. Estas podem ter diferentes origens e por vezes chegam até ao martírio. Têm no entanto o valor da heroicidade, ainda que nem sempre livres de falsas interpretações.

Estas resistências não conduzem ao fracasso mas são fonte de fecundidade e de vida. São trampolim de ressurreição porque têm o aval do Pai como o teve Jesus. O Pai é sempre fiel.

6. PARA NÓS HOJE.

Vivemos num mundo com uma dupla dificuldade para a vida religiosa:

Por um lado a indiferença da sociedade que vive outros valores e interesses que não os nossos. A nossas inquietações e vida passam-lhe ao lado.

E tão pouco nos livramos de oposição. De nós é oferecida nos meios de comunicação uma imagem destorcida, mal intencionada. Com facilidade se interpreta a nossa vida de forma perversa e não faltam situações em que se chega até ao martírio.

Contudo, a atualidade oferece-nos, hoje, muitas possibilidades. É certo que as pessoas vivem num profundo vazio existencial, cheio de falsos ídolos nos quais se apoiam, como o ídolo da economia e do bem-estar. Mas não deixam, embora pouco conscientes disso, de buscar desesperadamente motivos que fundamentem a razão da sua existência. Temos que saber discernir bem esses motivos desde a perceção de Deus:

• Saber conjugar as resistências na paz de Jesus com a força do Espírito Santo e dentro de um horizonte de esperança.

• Acolher a Cruz que a fidelidade ao carisma leva consigo, em obediência ao Espírito, para ser testemunhas do Reino no espaço em que nos situamos.

• Desprendidas das nossas resistências para acolher essa vontade do Senhor em nós e na Companhia, para ser sinal de esperança no mundo de hoje e desde a situação dos pobres.

 

SABENDO QUE EM TUDO ISTO

CONTAMOS COM A FORÇA DO ESPÍRITO

PARA NOSSA REFLEXÃO E ORAÇÃO

• Com que atitude acolhi os apelos do Espírito que nos foram chegando com a celebração do Capítulo.

• Quais as que devem ter uma maior incidência na minha vida e na vida da minha comunidade.

• Que resistências percebo de forma mais clara. Que fazer para situar essas resistências na dinâmica da cruz de Jesus.

 

PALAVRAS DE TERESA

Na cruz está a vida

e o consolo,

e só ela é o caminho

para o céu.

Na cruz está 'o Senhor do céu e da terra',

e o gozar muita paz, ainda que haja guerra.

Todos os males desterra neste solo,

e só ela é caminho para o céu.

Da cruz diz a Esposa ao seu Amado

que é uma "palma preciosa" onde subiu,

e o seu fruto sobe a Deus do céu,

e só ela é caminho para o céu.

É uma "oliveira preciosa" a santa cruz

que com o seu azeite nos unge e nos dá luz.

Alma minha, toma a cruz com grande consolo,

que só ela é caminho para o céu.

É a cruz a "árvore viçosa e desejada"

da Esposa, que à sua sombra se sentou

para gozar do seu Amado, o Rei do céu,

e só ela é caminho para o céu.

A alma que a Deus está rendida,

e muito de veras do mundo desprendida,

a cruz lhe é 'árvore de vida' e de consolo,

e um caminho deleitoso para o céu.

Depois que na cruz se pôs o Salvador,

na cruz está 'a glória e a honra',

e no padecer a dor, vida e consolo,

e o caminho mais seguro para o céu.

 

PALAVRAS DE HENRIQUE

"Aprendamos a levar, com amor, a cruz da vida de cada dia, que nos chega com as suas dores e trabalhos, ou ao menos como o Cireneu, fazendo da necessidade virtude. Estar sem cruz e escolher a nossa cruz, não está nas nossas mãos, mas podemos escolher o modo de a levar. Aceita a tua cruz com boa vontade, pois é o Pai que te ama que a envía, Com ela tecerás coroa de glória.

Tudo me fala de Jesus, que no amor não se pode viver sem dor... Não quero levar cruz emprestada, como a do Cireneu, mas como a tua Mãe a levou, com amor... Uma coisa me consola e é que Tu me amas e conheces as minhas forças e as minhas fraquezas. Conheces-me e és fiel... Deixo-me nas tuas mãos, mãos de Pai que eu sei que me ama. E apenas Te digo: Mudai-me aqui ou ali que a tudo direi que sim, pois por vossa me ofereci. Que quereis, Senhor, de mim?'

H. de Ossó em "Um mês na Escola do Sagrado Coração de Jesus"

Dia vigésimo sexto, pag. 174-176

 

Assumir a cruz é algo elementar para o discípulo de Jesus que se empenha na construção do seu Reino. A cruz não é um sofrimento que acontece ou que nós nos impomos, mas a consequência da não aceitação da mensagem de Jesus.