Encontro de Formação - Abril

encontro1

Santa Teresa e o Cântico dos Cânticos 

Foi em Fátima, de 28 a 30 de abril de 2012 que um grupo de irmãs da Província, se reuniu para escutar Santa Teresa, pela voz do Carmelita, Frei Pedro Bravo O. Carm.

O tema era aliciante para quem vibra com a dimensão de uma oração de contemplação, acrescida de um sabor Teresiano, que corre nas veias de cada uma de nós e nos identifica como consagradas nesta Família STJ, na qual o fundador se esconde por detrás da sua e nossa Mestra de oração, querendo que nos identificássemos como "outras Teresas". Sim, ler e escutar Teresa, comove, apaixona, gera vida interior. Ler Teresa em preparação remota para a celebração do V Centenário do Nascimento de uma mulher consagrada, em Igreja e para a Igreja, Doutora, Fundadora, Mística, interpela-nos, chama-nos, arrebata-nos. Teresa fala, ensina, reza e ensina a rezar, instrui, e sobe a tão altos e grandes voos já aqui na terra, que se tornou, foi e é uma bênção, uma escola, para os que dela querem aprender, querem saborear este grande dom da vida vivida na luz, na força e no poder do Espírito Santo, que conduz ao louvor, à gratidão, introduz em paraíso já aqui na terra, e nos prepara e abre à dimensão de Deus e de uma vida em eternidade que não bastará para conhecer a infinita, misericórdia de Deus.

Ainda com sabor e ecos do XVI Capítulo geral com o lema: "Vossa sou para vós nasci", abordamos um tema apaixonante: "Meditação sobre os Cantares (MC) ou Conceitos do amor de Deus, em Teresa de Jesus. O Tema, segundo o conferencista, tinha uma razão: pedir auxílio a Teresa, como Mestra e Doutora, para melhor entrarmos na compreensão, vivência e apreensão do livro do Cântico dos Cânticos, esse livro da Sagrada Escritura que canta a grande, infinita, profunda ternura de Deus pela Humanidade. Essa profunda revelação dos mistérios de Deus ou da união de Deus com a alma e desta com Deus a que somos chamadas por vocação de consagração e que Teresa viveu e escreveu, conforme o Espírito a guiou, porque Deus encontro2e os Seus mistérios, são indizíveis e não é fácil encontrar um mentor espiritual preparado para encaminhar esta trajetória espiritual.

O Conferencista, fez-nos uma introdução clara e eloquente sobre o Cântico dos Cânticos da Sagrada Escritura, apresentando-o, como livro fundamental para as/os consagradas/os em que cada palavra tem sabor Bíblico e traz em si mil mistérios do amor do nosso Deus, (MC.1,2) porque Deus ali se revela pelo Espírito Santo que as inspirou, e ali se esconde a nós que caminhamos ainda de morada em morada e porque, como afirma a Santa, a quem Deus concedeu tantas graças místicas, quando Deus nos quiser dar a entender essas coisas, nós as saberemos sem trabalho, nem cuidado (MC.1,2) e porque não se podem impor limites a um Senhor tão grande e tão desejoso de nos fazer favores. (MC.6,13).

Teresa escreve sobre o C. Cânticos, não tendo acesso ao texto mais do que em latim e/ou a pequenos fragmentos que lia no Oficio Divino, ou do Ofício de Nossa Senhora, dado que também este livro da Sagrada Escritura, foi interpretado à luz da Virgem Maria.

Apreciamos ter sabido que o C.C. foi escrito, (parecer do conferencista citando e apoiando Orígenes) por uma mulher judia em obra repleta de simbologia Bíblica e como todo o texto inspirado, só poderá ser lido à luz do Espírito, só sendo possível entrar no seu mistério, se já se entrou na contemplação. Podendo ser fácil interpretá-lo mal, pelos que não acederam ainda aos frutos do Espírito (citando Orígenes).

Referindo-se à obra de Teresa, Meditação sobre os Cantares, elucidou (o orador), que Teresa se refere ao C. C. não expressamente nesta obra, mas a partir das quartas Moradas, visto que a partir desse momento a alma entra na união com Deus. Assim, esta obra é mesmo uma meditação sobre alguns versículos do C. Cânticos, para ajudar as irmãs na caminhada espiritual e de modo especial, nas graças místicas, dado que elas não tinham acesso ao que ela já escrevera em outros livros, como seja: o Livro da Vida e Caminho de Perfeição, por não terem ainda sido divulgados. Além disso, Teresa sentia-se em muito grande sintonia com as vivências do C. Cânticos, embora a sua verdadeira intencionalidade era como já afirmamos, ajudar as suas confreiras que tinham entrado já nas quartas Moradas, a perceberem os favores místicos de Deus, dado que os orientadores espirituais não dominavam o campo da união com Deus em via mística.

Nas quintas Moradas ela nos elucida sobre a simbologia do matrimónio (cf.C.C.) para falar da íntima união com Deus e como esta simbologia fica aquém do que é possível dizer sobre a união de Deus com a alma e da alma com Deus. Oiçamos Teresa neste tema de tanta grandiosidade para os que trilhamos estes caminhos da fé ainda a amadurecer: "Bendita seja a Sua misericórdia, que tanto se quer humilhar! E ainda que seja uma comparação grosseira, não encontro outra melhor, que a do sacramento do matrimónio, para explicar o que pretendo. Não há dúvida, que é de maneira diferente. Nisto que tratamos, nunca há nada que não seja de teor espiritual. O que é corpóreo, fica muito aquém, os contentamentos espirituais que o Senhor concede, se comparados com os gostos que devem ter os que se desposam, estão a mil léguas de distância. Aqui, é tudo amor com amor, e as suas operações, são limpidíssimas, delicadíssimas e tão suaves, que não há palavras que as saibam descrever. Mas o Senhor, sabe muito bem, dá-las a sentir". 5 Mor.2,3

O Cântico não é, como diz o apóstolo, o leite que se dá às crianças, mas o alimento mais sólido, o pão branco, mais forte, que se deve dar aos espirituais; não o das palavras doutas da sabedoria humana, mas a doutrina do Espírito, acomodando o espiritual aos espirituais. Cf.1Cor.2,6-15 (in Cant.1,1).

Teresa interpreta o C.C de acordo com os seus conhecimentos teológicos. Dá enfase à relação de amor entre Deus e a alma e parece desconhecer a relação de uma hermenêutica bíblica na linha da relação do amor de Deus e Israel/Israel e Deus.

Ao citar o C.C. no seu primeiro versículo: "Beije-me, com o beijo da sua boca", Teresa lê e interpreta estas palavras, como o dom da paz e da unidade e afirma que a alma enamorada de Deus diz estas palavras, aplicando-as à Eucaristia, pedindo a Deus a Sua Paz e a Sua amizade, pois o beijo é sinal de grande paz e amizade entre duas pessoas. (MC.1,10)

E Teresa percorre no seu escrito MC. nove formas de paz enganosa a que temos de prestar muita atenção na vida espiritual: a tranquilidade de consciência dos que vivem em pecado; a mediocridade que leva a viver uma vida demasiado acomodada; a tranquilidade de consciência sem exigência na linha da pobreza; o desejo e a busca do êxito, do bom nome e da honra; o viver uma vida "regalada", cómoda sob a capa de necessidade por falta de saúde; a busca de uma vida boa sem o dom do serviço e da fraternidade; o temor da mortificação e do sacrifício; os que buscam só o seu interesse e o que lhes convém esquecendo a vontade de Deus; o desejo dos que querem sempre ser estimados; os que têm medo da mortificação e parece terem vindo à vida religiosa, para nada lhes faltar.

encontro3

Reafirmamos que o objetivo de Teresa neste escrito, parece passar pela ajuda às almas que atingiram as quartas moradas, a saltar, com novo vigor e força, porque ainda há muito caminho para andar e o Senhor é generoso com quem acolhe a Sua dádiva e permanecendo no seu amor, em atitude de gratidão e humildade, se abre a dons cada vez mais amplos e descobre sempre novos horizontes. O salto do amor exige, tudo perder, para tudo alcançar.

 

Não se podem pôr limites, a um Deus tão grande e tão desejoso de nos dar os seus favores MC 6,13 porque as Suas fronteiras são o Amor e estas são o AMOR.

Após esta pequena reflexão, com muitos limites e lacunas, apenas quisemos que algumas irmãs possam desejar saborear o que o grupo reunido em Fátima viveu e saboreou, porque o tema transcende a nossa pequenez e os nossos conhecimentos. Ele faz parte da alma que busca, que está a caminho e só Jesus é o CAMINHO.

Agradecemos ao Espírito Santo e à Igreja este poema de amor que é o CC no qual a pouco e pouco nos vamos adentrando. Agradecemos a Teresa a ousadia de mulher santa, sábia, espiritual que não parou na caminhada, mas chegou à meta e nos arrasta consigo na sua doutrina. Agradecemos ao Frei Pedro Bravo a sua exposição embelezada de imagens, encontro4

marcada por uma fé esclarecida e contagiante, por uma teologia profunda, fruto da sua abertura a Deus pela oração e pelo estudo apurado. Sentimo-nos vasos frágeis para receber o que Deus pôs no seu coração de Pastor.

Agradecemos a Eucaristia do Bom Pastor presidida pelo orador, Frei Pedro Bravo e que nós celebramos conjuntamente com os jovens do MTA, reunidos em encontro nacional com a irmã Manuela Guimarães. A animação dos cânticos, a comunhão e fraternidade que nos uniu, no mesmo Banquete Eucarístico, criou em nós a paz e a unidade. Que este BOM E BELO PASTOR, que nos foi apresentado na homilia, nos conduza e nos ajude a conduzir outras e outros para este limite do amor de Deus, que é não ter LIMITES.

Animou-nos a partilha que o grupo de irmãs teve após o lanche. Sentimos que entre nós circulava o dom do Espírito Santo na dimensão da unidade e da oração.

Maria Hortênsia stj

 

h4 style=