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A Inteligência e Reuven Feuerstein

ceameUMA PROPOSTA TEÓRICA E PRÁTICA AO SERVIÇO DO SER HUMANO

INTRODUÇÃO:

O Ser Humano através da sua história sempre buscou poder explicar o mundo, entendê-lo para poder não só sobreviver mas cada vez fazer uso de forma cada vez mais eficiente e eficaz, tarefa que naturalmente nunca foi fácil, nem é nem será nunca, porque este desatar de curiosidade, adaptação e criatividade exige mais do sujeito do que do mundo que quer conhecer. O Homem no seu longo percurso teve de aprender, desaprender e reaprender permanentemente, para se constituir em ser vivo " rei dos outros, i. e., o ser dominador dos restantes seres que povoam a nossa terra e más ainda ser competente, perante os demais seres humanos. Nesta tarefa estivemos empenhados desde sempre e essa continua a ser a nossa meta. Por que não foi fácil este caminho? Uma das razões fundamentais segundo o meu ponto de vista é a nossa grande ignorância a respeito da nossa própria natureza como ser humano. Que sabemos de nós mesmos? Creio que ainda muito pouco, mas não podemos desconhecer que muitíssimo mais que há 20 séculos. Qual foi o maior desafio? Irmo-nos descobrindo gradualmente entre nós, observando-nos, criticando-nos, Desafiando-nos, rejeitando-nos, aceitando-nos, respeitando-nos, valorizando-nos, amando-nos. E então pouco a pouco fomo-nos assombrando com as nossas próprias possibilidades, capacidades, habilidades e potencialidades, reconhecendo que cada um de nós foi tocado por uma mão divina, que ainda não nos permite descobrir em todo o seu esplendor, a maravilha do nosso dom, mas o que sim sabemos agora, com bastante mais certeza é que possuímos algo chamado inteligência que permitiu ser cada vez humano e humanitário (cometendo muitos erros desumanizadoras), tanto no sentido pessoal como social. Este apontamento pretende reflectir sobre alguns aspectos gerais da inteligência Humana na perspectiva psicológica e como una proposta de um ser visionário, como Feuerstein nos ajudou a tentar de entender a nossa natureza de forma um pouco mais compreensível e esperançada.

A INTELIGÊNCIA HUMANA: ALGUMAS REFLEXÕES.

O Homem foi necessitando de mecanismos que permitissem avaliar a capacidade mental dos integrantes da sociedade, fundamentalmente, para responder a necessidades particulares das mesmas sociedades. De maneira tradicional a avaliação desta capacidade esteve vinculada aos conceitos de Inteligência. A inteligência como conceito é um termo de difícil precisão e que foi servindo como base para o desenho de procedimentos diversos que tentaram medi-la, explicá-la e compreendê-la. A definição de inteligência no âmbito da psicologia, é ainda um dos conceitos que respondem a diferentes concepções segundo seja a teoria sob a qual se analisa. Podemos dizer que é noção central também na filosofia e que numa tentativa de explicação enciclopédica, se diz que indica o nível "de desenvolvimento, autonomia e domínio do meio que o ser vivo vai alcançando ao longo da evolução. No homem, permite a abertura à realidade, conhecimento reflexivo, personalização da conduta e a invenção da cultura" (Dic. Enc. Educ. Especial). O termo Inteligentia (legere: captar, escolher), foi criado por Cícero para designar a capacidade de entender, compreender e inventar e tem um muito amplo espectro semântico, que reflecte a ideia clássica segundo a qual o homem, pela sua inteligência, é de certo modo todas as coisas. (Aristóteles, De Anima I). Em filosofia significou nível ou faculdade cognitiva, função intelectual simples, nota essencial do homem, princípio espiritual e ente imaterial. Nestes contextos costumam empregar-se termos como intelecto, entendimento, pensamento, juízo, razão ou conhecimento. Em psicologia, o estudo da inteligência foi abordado mediante múltiplos enfoques teóricos e metodológicos, até há pouco, díspares e desconexos, hoje em parte, convergentes e complementares. Estes enfoques podem reduzir-se a três principais; o geral, o genético e o diferencial, que tratam da natureza da inteligência, do seu desenvolvimento e das suas modalidades segundo os indivíduos e os grupos. No interior de cada um destes enfoques há diversas teorias e orientações. A actual psicologia cognitiva, concebe a inteligência como um sistema de processamento e estuda as estratégias e componentes da recepção, codificação, recuperação elaboração da informação, portanto estabelece ponte com os processos superiores do pensamento, factores que seriam indicadores do desenvolvimento cognitivo no ser humano. Tentando simplificar o conceito de inteligência, poderia citar-se Yuste que diz "capacidade ou tendência de explicar com estruturas progressivas e ilimitadamente mais abstractas os factos de experiência, para os acomodar aos nossos próprios fins". (Yuste, 190), ou o que indica Pastor e Sastre (194): "capacidade do indivíduo para estabelecer relações entre informações das que dispõe, que lhe permitem estruturar e categorizar o saber." O estudo Ontogenético considera o desenvolvimento da inteligência, especialmente do homem, ao longo da idade. Neste campo conhecem-se as teorias maturacionistas (Gesel), empíricas (Gagné) e construtivistas (Piaget, Luria, Bruner, Feuerstein). Os equacionamentos deste último autor, serão o centro deste documento. Sobre a Inteligência pontualmente, Feuerstein diz: "é a capacidade de mudar, a capacidade do indivíduo de se beneficiar da experiência para a adaptação a novas situações, adequando o comportamento actuando sobre meio". (Feuerstein 196). A investigação actual põe de manifesto que inteligência não é simples, nem fixa, nem autónoma, mas complexa, modificável e dependente. A inteligência não é simples, mas complexa: mostra-se como uma hierarquia de processos cognitivos, onde cada nível é ao mesmo tempo parte de estrutura superior e totalidade, formada por componentes interdependentes. O sistema total está ciberneticamente auto-regulado e aberto uma complexidade crescente inovadora. Não está dada desde o nascimento, constitui-se mediante a actividade do sujeito. A inteligência é Una e Múltipla: É Una: porque é um sistema hierarquizado de processos e estratégias cognitivas, uma dimensão geral de desenvolvimento estruturas, um factor abstracto e relacionante. É Múltipla: uma variedade de metacomponentes, componentes, estruturas sucessivas e dimensões interdependentes devidas à interacção entre a herança, a organização cerebral e a diversidade de vias de desenvolvimento dos diferentes sujeitos e grupos. A Inteligência não é fixa é modificável: é indubitável que a inteligência tem uma base genética. Conhecem-se mais de 1.50 "síndromes patológicos" geneticamente determinados, muitos dos quais afectam dramaticamente a inteligência. Porém, estima-se que a hereditariedade flutua em volta de 50%. O influxo do ambiente é pois considerável. A inteligência pode modificar-se si se alteram as circunstâncias. Parece indiscutível que a inteligência é baseada na dotação genética, depende na sua efectiva actualização da actividade do sujeito no seu ambiente. A inteligência não é autónoma mas dependente: O homem, não a inteligência, é quem pensa. Fá-lo segundo a sua personalidade e a sua circunstância. Não só existe a medível psicometricamente e o pensamento lógico, há mil matizes e modos de pensar, de esclarecer a própria vida de auto-enganar-se. A actividade inteligente é simultaneamente, índice e função da personalidade. A compreensão da conduta inteligente de uma pessoa, exige o estudo da sua personalidade, sua motivação, suas atitudes, sua história. Tudo o anterior, se poderia tratar de expressar da seguinte maneira: A MOFICABILIDADE COGNITIVA ESTRUTURAL REUVEN FEUERSTEIN, Psicólogo, nascido na Roménia e radicado em Israel, aprendeu a ler aos três anos de idade e aos oito ensinava ler através da Bíblia. Estudou em Genebra e foi discípulo de Piaget. Em Israel depois da I guerra mundial, começou a trabalhar com Youth Aliyah, agência responsável pela integração de crianças judaicas nos campos de Marrocos e Sul de França. Para entregar a estas crianças socialmente, eram avaliados previamente. Dado que as avaliações a que se submetiam as crianças, davam na sua maioria resultados atraso deficiência mental, Feuerstein, questionou os instrumentos de avaliação tradicional utilizavam e mediam condutas relacionadas com produtos ou sucessos específicos sem considerar os ambientes culturais e sociais de quais provenham as crianças. E assim, como desenvolver com a equipa o programa de Avaliação da Propensão para a aprendizagem (Learning Potential Asesment Device (LPAD), Esta proposta persegue avaliar as capacidades e mudanças cognitivas que uma pessoa pode evidenciar durante o processo de avaliação. O seu objectivo será então, não medir o Q.I. (coeficiente intelectual), ou capacidades do sujeito no momento, mas as suas possibilidades de mudança estrutural cognitiva para o futuro, naturalmente em coerência com a concepção inteligência já descrita. Daqui Feuerstein, projecta a sua proposta teórica da Modificabilidade Cognitiva Estrutural, convencido que todo o ser humano é um organismo aberto à mudança e com uma inteligência dinâmica, flexível e receptora a intervenção positiva de outro ser humano. Este psicólogo, actualmente, director do Hadasah-WIZO-Canada Research Institute (HWCRI) e do International Center for Enhancement of Learning Potential (ICELP) em Israel, foi e é, portanto, um grande inovador no campo da psicologia e da educação. Dedicou grande parte da sua vida ao estudo da inteligência humana programas que ajudem aos sujeitos privados culturalmente e aos de baixo rendimento cognitivo, a optimizar as suas capacidades e enfrentar da melhor maneira desafios da vida.

O questionamento teórico de Feuerstein - a Modificabilidade Cognitiva Estrutura l-, sustenta-se na linha da psicologia cognitiva, interessando-se pelo desenvolvimento da cognição (conhecimento por inteligência) e dos processos que intervêm (atenção, percepção, memoria, generalização) como factores que incidem em comportamento inteligente. Além do mais, preocupa-se por estudar o indivíduo obtém informação, o que adquire, o que codifica, o que armazena e o que transfere posteriormente a outras situações novas. A sua teoria sustenta-se na crença que todo o ser humano que não responde cognitivamente aos requisitos das diferentes instâncias sociais, tais como colégio, trabalho ou outras, é porque utiliza inadequadamente e portanto, de forma ineficaz, funções cognitivas são pré-requisitos das operações mentais que determinam um funcionamento cognitivo adequado. Este questionamento apresenta-se como um enfoque que destaca a condição do Ser Humano de possibilitar mudanças activas e dinâmicos em si mesmo, assumindo um papel de gerador ou produtor de informação, contrário à aceitação passiva de receptor e reprodutor desta. Descreve a capacidade única do organismo humano para mudar a estrutura do seu funcionamento. Esta mudança apoia-a numa crença que surge das necessidades de enfrentar os desafios do mundo. O compromisso mental do indivíduo com o futuro será a alavanca para a mudança. Esta proposta de Feuerstein é estrutural - funcional. É estrutural na medida em que a modificabilidade cognitiva pretende mudanças estruturais, que alteram o curso e direcção do desenvolvimento, em busca de processos cognitivos superiores permanecem. Feuerstein coloca duas modalidades que determinam o desenvolvimento cognitivo diferencial do sujeito. Estas duas modalidades são: a. A exposição directa do organismo aos estímulos do ambiente: Refere-se a que todo organismo em crescimento, dotado de características psicológicas determinadas geneticamente, modifica-se ao longo da vida ao estar exposto directamente os estímulos que o meio lhe provê. b. A experiência de aprendizagem mediada: Para que esta modificabilidade se apresentem o sujeito, é necessário que se produza uma interacção activa entre o indivíduo e as fontes internas e externas estimulação, o qual se produz mediante a Experiência de Aprendizagem Mediada. (E.A.M). Esta concretiza-se com a intervenção de um Mediador (pai, educador, tutor, ou outra pessoa relacionada com o sujeito), que desempenha um papel fundamental na selecção, organização e transmissão de certos estímulos provenientes do exterior, facilitando assim, a sua compreensão, interpretação e utilização por parte do sujeito, ao mesmo tempo que um transmissor de Cultura. Indica também, que existem dois tipos causas que influem é este desenvolvimento cognitivo: As Causas Distais: relacionadas com os factores genéticos, orgânicos, ambientais, maturacionais e outras que estão permanentemente a incidir no ser humano.

As Causas Proximais: que têm que ver com a carência de aprendizagem sistematizado, ambiente empobrecido socioculturalmente e outras. Cabe sim, destacar que Feuerstein, não aceita que as causas Distais, determinem um deterioro irreversível dos sujeitos, como tão-pouco, próximas, possam afectar grave irreversivelmente o indivíduo. A EXPERIÊNCIA DE APRENDIZAGEM MEDIADA (EAM) A EAM, manifesta-se como "um tipo de interacção entre o organismo do sujeito e o mundo que o rodeia. Certos estímulos do meio ambiente, são interceptados por um agente, que é um mediador, que os selecciona, organiza, reordena, agrupa, estruturando-os em função de uma meta específica." (Feuerstein, 191). A EAM, segundo Feuerstein, pode ser oferecida a todos os sujeitos e em qualquer idade. O importante é a utilização de uma modalidade apropriada. A ponte entre o meio e o sujeito constrói-o Mediador que possibilita que este sujeito incorpore uma ampla gama de estratégias cognitivas e processos, que derivarão em comportamentos considerados pré-requisitos para um bom funcionamento cognitivo. O mediador muda a ordem causal da aparência de alguns estímulos transformando-os numa sucessão ordenada. Leva o sujeito a focalizar a sua atenção, não só para o estímulo seleccionado, mas para as relações entre este e outros a antecipação dos resultados. Esta mediação persegue propósitos específicos, descrevendo, agrupando e organizando o mundo para o mediado. Assim, o desenvolvimento cognitivo do sujeito, não é somente o resultado do seu processo de maturação do organismo, nem da sua interacção independente, autónoma, com o mundo dos objectos, mas que é o resultado da combinação dos dois tipos de experiências já antes citadas, a exposição directa aos estímulos do meio e a experiência de aprendizagem mediado, pela que se transmite cultura.

MODELO TEORICO DA EXPERIÊNCIA DE APRENDIZAGEM MEDIADA H. O Mediador Humano se interpõe entre o Estímulo e o Organismo, selecciona, reordena, organiza, transforma, oferece estímulos, orienta para comportamentos cognitivos óptimos e eficazes. S -> Estímulos directos que penetram ao acaso, podem ou não relacionar-se com o indivíduo, há muitos também não lhe legam. S -> Estímulos mediados, em que mediador assegura a criação de condições óptimas de interacção, cria modos de perceber, de comparar com outros estímulos, levando a que o sujeito adquira comportamentos apropriados, formas de aprendizagem mais efectivos, estratégias cognitivas, e hábitos de trabalho sistemáticos e organizados.

O -> Organismo do sujeito o qual percebe, elabora e responde aos estímulos que penetraram tanto ao acaso em forma directa, como os que foram mediados. R -> Respostas emitidas pelo sujeito frente a estímulos diversos que penetraram ao organismo. O mediador, enriquece a interacção entre o sujeito e o meio ambiente, proporcionando-lhe estimulações e experiências que não pertencem ao seu mundo imediato. A EAM representa um conjunto de interacções marcadas por uma série de necessidades culturais entre o sujeito e o seu meio, criando neste, certos processos que não afectam unicamente aos estímulos que foram mediados, mas também, muito significativamente, a capacidade do indivíduo para aproveitar o estímulo que entrou directamente ao organismo.

CRITÉRIOS DE MEDIAÇÃO. É importante na EAM, que as interacções que levem aprendizagens qualitativamente significativas, respondam a certos critérios com os quais o Mediador deverá actuar. Colocam-se 12 critérios ou formas de interactuar que o mediador deve contemplar e integrar na sua comunicação com o mediado. Estes são: Intencionalidade e Reciprocidade, Mediação do Significado, Transcendência, Mediação do Sentimento de Competência, Regulação e Controlo do Comportamento, Acto de Compartir, da Individualização e diferenciação psicológica, Mediação a busca, planificação sucesso dos objectivos, Mediação da busca de novidade e complexidade, Mediação do Ser Humano como modificável, Mediação do Optimismo, Mediação do Sentido de Pertença Cultural. Destes, os três primeiros critérios são indispensáveis para que exista uma real interacção de EAM, já que são considerados responsáveis da modificabilidade estrutural do Ser Humano e são de carácter universal e por isso se explicarão de forma mais exaustiva.

1. Intencionalidade e Reciprocidade: O Mediador coloca uma "interacção intencionada", há metas prévias que orientam a selecção e organização da informação e do material necessário, para alcançar os objectivos pré-fixados. A EAM implica uma consciência colectiva cultural e o Mediador é o representante da cultura, levando a que o sujeito não só receba estímulos, mas se envolve e assuma um desafio partilhado num processo mútuo, que leve ao conhecimento, desenvolvimento enriquecimento de ambos.

2. Mediação do Significado: Tem que ver com a necessidade de despertar no sujeito, o interesse pela tarefa em si e que conheça a importância e a finalidade que esta tem para a sua aprendizagem. Para isto, o mediador deve desenvolver fortalecer um laço afectivo poderoso com o mediado, a modo de possibilitar aceitação abertura do sujeito à recepção e a elaboração do estímulo, de modo que penetre o seu sistema de significados.

3. Mediação de Transcendência: Refere-se a que a mediação deve estender-se para além da necessidade imediata que a originou, deve levar a relacionar uma série de actividades do passado com o futuro, conseguindo alcançar um nível de generalização a informação. Todos os critérios mediação enunciados (12) permitirão levar o sujeito a "aprender a aprender" entendido isto como aprender a adaptar-se ao amanhã e a desenvolver a sua capacidade de pensar de forma mais eficaz e efectiva. Feuerstein diz: " A maior parte dos rasgos que consideramos constitutivos da mente humana não estão presentes a menos que os ponhamos aí, através de um contacto comunicativo com outras pessoas."

PROGRAMA DE ENRIQUECIMENTO INSTRUMENTAL

Feuerstein desenvolve além do mais um programa directamente dirigido a potenciar a inteligência e por também as capacidades do Ser Humano. O Programa de Enriquecimento Instrumental (conhecido como P.E.I.), foi desenhado para modificar as estruturas cognitivas de crianças, adolescentes e adultos, já seja que apresentem privação sociocultural, comportamento retardado, com sujeitos com necessidades educativas especiais (transtornos de aprendizagem, sobe o rendimento) ou simplesmente com sujeitos normais que desejem incrementar as suas capacidades. O programa é uma estratégia de intervenção cujo objectivo é modificar as funções cognitivas deficientes entendidas estas como aqueles pré-requisitos do pensamento que permitem activar as operações ou acções mentais que possibilitam produzir os mecanismos necessários para recolher, relacionar, conectar, associar, identificar, comparar, classificar, analisar, sintetizar, inferir e elaborar informação, (por mencionar alguns), tanto desde o momento de entrada, elaboração como de saída da informação, fases em que se produz o processo do pensamento desenvolver toda a capacidade operativa do sujeito. O termo "privação cultural", referem-se a este contexto à capacidade reduzida de alguns sujeitos para modificar as suas estruturas intelectuais e responder a fontes externas de estimulação. A origem da incapacidade para organizar e elaborar a informação está numa carência da "experiência da aprendizagem mediada" através de um mediador. O Programa Enriquecimento Instrumental é uma tentativa de compensar os défices e carências da experiência de aprendizagem mediada através de um mediador, apresentando ao sujeito uma série de actividades, tarefas, situações e problemas construídos para modificar o seu deficiente funcionamento cognitivo. O material de Feuerstein consiste em mais de 50 páginas de problemas e actividades de papel e lápis que se dividem em 14 instrumentos trabalho. Cada instrumento está enfocado a desenvolver uma função cognitiva específica, permitindo ao mesmo tempo, a aquisição de numerosos pré-requisitos de aprendizagem que são transferidos diferentes contextos, segundo for a idade, características e necessidades, da pessoa que desenvolve o programa.

OPERAÇÕES MENTAIS E AS FUNÇÕES COGNITIVAS Estes conceitos são relevantes na proposta do Dr. Feuerstein. As Funções mentais são as estruturas básicas que servem de suporte a todas as Operações Mentais. "Estas são condutas interiorizadas ou exteriorizadas, um modelo de acção ou um processo de comportamento, pelo que as pessoas elaboram os estímulos. É o resultado de combinar as nossas capacidades, segundo as necessidades que experimentamos, numa determinada orientação" (Tébar,195). Com o fim de clarificar a conceptualização como Feuerstein equaciona as Operações Mentais, expõe-se a seguir uma breve definição de algumas delas:

Identificação: capacidade de atribuir significado a um facto ou situação. Evocação: recordar uma experiência prévia.

Comparação: habilidade de confrontar dois ou mais elementos, estabelecendo semelhanças e diferenças.

Análise: habilidade de decompor um todo nos seus elementos constitutivos. Síntese: habilidade para integrar num conjunto os elementos de um todo. Classificação: agrupar elementos em classes e subclasses, de acordo com um ou mais critérios.

Representação mental: capacidade de utilizar significantes para evocar mentalmente a realidade.

Raciocínio divergente: capacidade para produzir ideias ou soluções diferentes e criativas dos problemas equacionados.

Raciocínio hipotético: ensaiar mentalmente diversas opções de interpretação e resolução de um problema.

Raciocínio inferencial: habilidade para predizer ou generalizar o comportamento de factos ou fenómenos a partir de situações experiências particulares.

As funções cognitivas deficientes, consideradas como o resultado de uma carência ou de uma insuficiência de mediação ou experiência de aprendizagem, integram toda a série actividades mentais, que são pré-requisitos para conseguir que estas se realizem de modo correcto. Estas agrupam-se por fases do acto mental, segundo permitem recolher informação (entrada /INPUT), associar e conectá-la (elaboração /PROCESS) ou entregar a resposta um problema (saída /OUTPUT). Esta capacidade mental manifesta-se em acções concretas, perante tarefas e problemas; mas essa realização pode ver-se impedida por diversos factores que estão relacionados, como os seguintes: * com o indivíduo (impulsividade, percepção difusa e outros). * a tarefa de alto grau de complexidade ou de abstracção) * meio (mediação deficiente). Expõe-se a seguir uma explicação de algumas das funções cognitivas a modo de exemplo, segundo a sua localização na fase do acto mental:

* INPUT ou Fase de Entrada de Informação: esta fase refere-se ao momento do acto mental onde se acumula informação, pelo que as deficiências se produzem tanto a nível quantitativo como qualitativo da informação. Feuerstein identifica oito, das quais mencionaremos algumas:

Percepção apagada e difusa. O estímulo que se percebe não se capta com todas as características qualitativas e quantitativas, a informação registada é imprecisa. Comportamento exploratório não planificado: Impulsivo e assistemático. O sujeito não actua de forma ordenada para seleccionar ou captar as características relevantes da informação, pelo que não utiliza esta de forma sistemática que lhe permita alcançar os objectivos.

Ausência ou insuficiência de instrumentos verbais e conceitos. Afectam a discriminação e identificação dos objectos com o seu nome, manifestando-se assim, limitações devido a não dispor o sujeito de um código verbal que lhe permita explicar, descrever, relatar experiências e comparações com termos adequados.

Deficiência na precisão e exactidão na recompilação de dados. Dificuldades que têm que ver com a falta de precisão, tanto ao recompilar dados (incompletos ou parciais), como ao expressá-los de forma distorcida.

Deficiência para considerar duas ou mais fontes de informação simultaneamente. Inclui as dificuldades em relacionar entre si os dados que permitem a comparação e a diferenciação e utilizá-los posteriormente em outras fases.

* PROCESS ou Fase de Elaboração: inclui os factores que impedem o indivíduo de associar, conectar, fazer uso eficaz da informação armazenada ou disponível. Algumas delas:

Dificuldade para perceber um problema e defini-lo. O sujeito tem dificuldade tanto para reconhecer e definir um problema, podendo isto originar-se na falta de necessidades ou exigências culturais relacionadas.

Dificuldade para distinguir dados relevantes de irrelevantes num problema. Contempla as dificuldades para descobrir o nível de importância dos dados que aparecem num problema e que o definem como tal.

Dificuldade ou carência da Conduta Comparativa. A comparação é uma das operações mentais mais importantes já que permite estabelecer as relações entre pessoas, objectos e dados, permitindo a organização e integração de diferentes tipos de informação.

Percepção episódica da realidade. Contempla a incapacidade para explicar/compreender a realidade de forma global. Esta é apresentada de forma isolada ou fragmentada, não possibilitando estabelecer relações, comparação nem a integração em diferentes contextos.

Dificuldade na planificação da conduta. Não há planificação das acções necessárias, sequenciadas e ordenadas, para alcançar objectivos ou metas específicas. Não há uma conduta organizada previamente que leve a fazer a transferência para diferentes aspectos da vida.

* OUTPUT ou Fase de Saída da Informação. Contemplam-se todas as funções cognitivas que conduzem à expressão, à comunicação dos resultados obtidos na fase anterior. Algumas delas são:

Modalidade de comunicação egocêntrica. O sujeito apresenta dificuldades para superar o egocentrismo evolutivo, utiliza a linguagem para caracterizar objectos ou exprimir pontos de vista, sem considerar o ponto de vista do outro.

Bloqueio na comunicação da resposta. O sujeito não pode emitir a sua resposta, ainda que tenha realizado um funcionamento adequado na fase de elaboração. As causas deste bloqueio são muitas, podendo interferir o emocional, o afectivo (inibição, temor, insegurança) e também o funcionamento cognitivo. Carência da necessidade de precisão e exactidão para comunicar as próprias respostas. Tem a ver com a falta da necessidade de precisar as suas respostas, utilizando um vocabulário adequado e fluído.

Conduta impulsiva que afecta a natureza do processo de comunicação. Refere-se à necessidade de reflectir, antes de emitir uma resposta, seleccionando adequadamente a forma de a expressar. A explicação que propõe Jacov Rand, - integrante da equipa do Dr. Feuerstein, investigador e co-director do HWCRI -, para compreender as funções cognitivas deficientes e sua vinculação com as operações mentais, sustenta-se na inter-relação que estabelece com três variáveis cuja interdependência permite que no processo cognitivo se manifestem: Capacidade, Necessidade e Orientação.

As funções cognitivas deficientes explicam-se, geralmente, por falta de Capacidade. Todavia é a falta de Necessidade a que origina o baixo nível de funcionamento mental do sujeito. Esta necessidade pode despertar-se e modificar se existir uma Orientação clara para metas específicas (intencionalidade do mediador). Assim, a modificação da Necessidade por meio da Orientação produz a modificação e o incremento da Capacidade e por tal o melhor funcionamento das operações cognitivas. O anterior é indicado e representado graficamente por Yacov Rand (191) – colaborador próximo de Feuerstein - , no seguinte modelo:

A simbologia precedente corresponde ao seguinte: Função Cognitiva: (FU) estrutura pessoal interiorizada de índole energético-intelectual que se expressa num padrão de conduta definido. Capacidade: (CA) habilidade que torna possível a realização de uma tarefa dada. Necessidade: NE) sistema energético que persegue alcançar algo originando a eleição de formas de actuar individuais apoiadas em factores internos e externos. Orientação: (OR) componente direccional da função cognitiva determinando a eleição, o marco, o método e as estratégias aplicadas frente aos estímulos. Operação mental: (OP) conjunto de acções interiorizadas, organizadas e coordenadas pelas quais se elabora a informação que provém de fontes internas externas. Os três níveis do acto mental estabeleceram-se com o fim de tornar mais operativo o trabalho com as funções cognitivas. Porém, a interacção e interdependência destes é de grande importância para a compreensão do défice cognitivo e dão-se na realidade fortemente vinculados e integrados. Finalmente a consideração de todos os elementos descritos neste resumo das problematizações mais importantes, diz Feuerstein, permitirão levar o sujeito mediado ao desenvolvimento de estruturas cognitivas que se baseiem na utilização de operações mentais básicas, que potenciem a Inteligência e possibilitem as aprendizagens que permitam "saber buscar informação, saber como a usar, saber como a elaborar, saber inferir dessa informação, saber aplicar e transferir essa informação para novas situações."

Neste contexto necessita-se de resgatar a grande importância do papel do Adulto - Profissional - Mediador. Este deverá ser entendido, assumido e desenvolvido de forma diferente, respondendo às características de bom mediador, sendo um transmissor de cultura, vivenciando primeiro em si mesmo e permanentemente as possibilidades de mudança e de optimização da sua tarefa: um Ser Humano aberto à mudança e às propostas inovadoras e sobretudo confiando e valorizando as capacidades de cada um dos sujeitos com os quais lhe corresponderá trabalhar. Só assim, se conseguirá formar seres que, sem esquecer-se de viver realmente, se sintam confiados e preparados para assumir e enfrentar com eficácia, autonomia, iniciativa e criatividade, os constantes e futuros desafios que a vida lhes impõe.

CEAME : Centro de Estudios, Evaluación y Estimulación del Aprendizaje Mediado. A INTELIGÊNCIA E REUVEN FEUERSTEIN: UMA PROPOSTA TEÓRICA E PRÁTICA AO SERVIÇO DO SER HUMANO.

AUTORA: Sonia Fuentes Muñoz Magister en Educación Especial P.U.C. Trainer P.E.I.- HWCRI - Israel Especialista D.P.A.-ICELP Santiago - 19

A INTELIGÊNCIA HUMANA. REFLEXÕES DESDE A PROPOSTA DE MODIFICABILIDADE COGNITIVA ESTRUTURAL DE R.. FEUERSTEIN.

Autora: Sonia Fuentes Muñoz. (*)